Renner, “a Empresa do Ano”, segundo a revista Exame

Há 26 anos no comando das Lojas Renner, Galló desenvolveu um estilo de gestão de atenção aos detalhes e de fuga dos modismos.

Que características precisa ter um executivo para triunfar no hipercompetitivo mercado de moda? Ousadia? Inovação? Agressividade? Para José Galló, presidente da Renner, escolhida a empresa do ano por Melhores e Maiores, o que conta mesmo é disciplina e obsessão pelos detalhes.

São características que fazem com que a Renner, uma gigante que faturou 2,2 bilhões de dólares no ano passado com um lucro de 221 milhões de dólares, seja uma empresa sui generis em seu segmento.

Entre as varejistas de capital aberto, a Renner é a líder em produtividade e em riqueza gerada pelo empregado. Galló, hoje com 67 anos está à frente da companhia desde 1991, e prepara sua saída do cargo. Seu estilo de gestão, único, é um dos trunfos da varejista gaúcha.

As Seis – eram cinco e eu inclui mais uma – características de liderança que ajudam a explicar o sucesso da Renner — e que podem inspirar qualquer negócio.

1- Viva a empresa – Em 2017, os seis diretores estatutários da Renner ganharam juntos mais de 30 milhões de reais em remuneração fixa e variável. Galló, portanto, poderia comprar roupas em qualquer loja do planeta. Mas usa ternos e sapatos Renner para trabalhar — os paletós podem custar menos de 200 reais nas lojas. Galló também tem o costume de visitar as lojas e anotar o que gostou, e o que não gostou. Também acompanha as tendências de moda e as coleções de outras empresas, faz anotações sobre o que vê nas ruas do Brasil e do exterior, e faz sugestões à equipe. Depois, repassa suas impressões à equipe em reuniões quase diárias. Numa delas, acompanhada por Aline, falou sobre o desgaste na pintura de um móvel e um vestido que parecia fora do lugar. “Minha mensagem é mostrar que, se o presidente da empresa tem essa atitude, o diretor tem de ter e o gerente-geral também”, diz.

2- Sonhe grande – Galló sempre fez com que a Renner sonhasse grande. A empresa vale hoje sete vezes mais que sua antiga controladora, a varejista americana JC Penney. Quando vendeu suas ações, em 2005, a rede americana valia 17 vezes mais. No memorial, uma espécie de museu em um novo prédio da sede da companhia, impressiona a frase que resume a missão da Renner: “Ser a maior varejista de moda das Américas”. Das Américas?

Galló: “É lógico que no primeiro olhar América significa nossa América Latina, não significa Estados Unidos no momento, a curto prazo. Neste momento, estamos no Uruguai vendendo 40% a mais do que esperávamos”.

“Para atuar ali na fronteira, tivemos de investir 20 milhões de reais na atualização de 146 processos e 520 subprocessos e levamos mais de dois anos para isso. Mas hoje já temos uma plataforma em espanhol para atuar em outros países”. Hoje são 527 lojas. A Renner projeta chegar em 2021, com 875 unidades (entre Renner, Camicado e Youcom — sem contar Ashua).

3- Não tenha pressa, ou Galló, O Consultor. “Fecha essa merda” – início de carreira de consultor… Apesar de estar há 26 anos no comando da Renner, Galló teve experiências anteriores que o ajudaram na formação.

Em 1991, Galló foi contratado como consultor por Cristiano Renner, neto de A.J. Renner e diretor presidente da Renner, para um trabalho de três meses de consultoria estratégica. Nascido em Galópolis, bairro de Caxias do Sul, na Serra Gaúcha derivado do sobrenome de seu avô Hércules Galló (ex-prefeito de Caxias do Sul), Galló tinha até então apenas uma experiência prévia como consultor. Havia resolvido um problema de estoque de uma rede local de lojas de vestuário.

Formado em administração pela Fundação Getúlio Vargas de São Paulo, ele trabalhara durante quase vinte anos como empreendedor, sócio e responsável pela parte comercial de uma varejista de eletrodomésticos e móveis de Porto Alegre, e de uma indústria de embalagens e peças de plástico a qual fundou com um amigo em Caxias do Sul.

Depois de trabalhar três meses na elaboração do planejamento estratégico e reposicionamento da Renner, Galló foi convidado para executar o projeto, assumindo o cargo de diretor superintendente.

4- Cuidado com Modismos – Galló reitera que definiu em 1991, a proposta de valor da Renner e “apenas fomos acrescentando algumas palavras ao longo do tempo”.

O plano era vender roupas com preços acessíveis para mulheres de 30 a 40 anos que compram para toda a família. Ao contrário do que passaram a fazer nossos concorrentes, jamais contratamos estilistas renomados, nem celebridades para as campanhas, nem inauguramos lojas-conceito. Não acelero bruscamente a abertura de lojas quando o vento está a favor, nem piso no freio quando o cenário muda.

5 – Respeito aos Acionistas e a Empresa – Galló mantém hábitos espartanos, e incentiva a equipe a segui-los. Os diretores trabalham com as luzes apagadas durante o dia, e se servem de café da garrafa térmica.

6- Treine a equipe. Depois treine mais – Um dos pontos que diferenciam a Renner da maioria das empresas brasileiras é o número de horas de treinamento por funcionário: 120 horas em média por ano.

A média, segundo a pesquisa Panorama do Treinamento no Brasil de 2017, foi de 21 horas.  Uma das iniciativas mais recentes nesse quesito é implementação do “RED” (vermelho em inglês, a cor da Renner) em alusão ao TED – famoso ciclo de palestras rápidas e dinâmicas.  Especialistas em temas como tendências de moda, sustentabilidade, e vendas são contratados ou convidados para falar aos funcionários.

Clarice Martins Costa, diretora de RH: “Todos os nossos funcionários têm de entender de moda e atendimento ao cliente porque é isso que nós fazemos”.

Em abril do próximo ano, José Galló, deixa o comando do maior varejista de moda do Brasil. Sai ou autor permanece sua obra. Falando sobre a data Galló declarou: “Vou para o conselho de administração, mas vou continuar acompanhando. Costumo dizer: colocando o nariz, mas não colocando o dedo…”.