Realismo esperançoso

Imagino André Lahóz Mendonça de Barros, Diretor de Redação de Exame, olhando para seu computador e preparando-se para escrever a Carta ao Leitor da edição especial, a mais aguardada dentre todas as edições das publicações de negócios, Melhores & Maiores.

Lá fora, nas demais redações e publicações sobreviventes da Abril, a tesoura acelerada procede aos cortes determinados pela empresa especializada em tentar recuperar empresas em estado terminal e na Uti dos Negócios.

André tem à sua frente a pesquisa realizada pela consultoria de gestão Betânia Tanure. E nela a fotografia do “mood” dos empresários no ambiente corporativo brasileiro.

André lembra-se Ariano Suassuna e de uma de suas melhores frases: “O otimista é um tolo. O pessimista, um chato. Bom mesmo é ser um realista esperançoso”.

Esse é André. Imagino que assim se encontrem queridos amigos sobreviventes de uma sucessão de cortes na Abril, assim somos todos aqueles que continuam amando o Brasil e alimentando um realismo esperançoso.

Esperançosos, eles, André e companheiros da Abril.

Esperançosos nós, que o Brasil acorde e finalmente, corresponda à todas as apostas feitas nos brasileiros pela generosidade do universo, pelas bênçãos de um possível Deus, pelas graças a nós concedida pela natureza exuberante e esperando que façamos, minimamente, a nossa parte.

Betânia Tanure entrevistou no correr do mês de julho, e enquanto éramos defenestrados uma vez mais da Copa, percepções e sentimentos de 341 dirigentes de grandes empresas sobre o que nos aguarda.

51% deles revelaram-se pessimistas ou muito pessimistas com a situação. Ruim. Mas melhor que idêntica pesquisa de dois anos atrás onde esse contingente totalizava 69%. Ou, é ruim, mas, já foi pior.

À medida que as perguntas aumentam o horizonte de tempo, os sentimentos vão melhorando. Em dois anos, a soma de otimistas e muito otimistas corresponde a 40% das respostas. E em quatro anos, o número sobe para 62%.

Em tempos de eleição, a consultoria aferiu a preferência dos dirigentes das empresas. Se só eles fossem os eleitores o próximo presidente seria Geraldo Alckmin, com 36% das preferências. Seguido pelos que ainda não têm candidatos, 30%, e João Amoedo, 14%, Bolsonaro, 6%, Álvaro Dias 4%, Meirelles 3%, e outros 7%.

Ao traçarem o perfil do presidente ideal, virtudes e competências, valorizam quase que na mesma proporção, Honestidade e Ética, Capacidade de Articulação e Negociação, e, Capacidade de Liderança e Gestão. Bem distante, tão grandes são as aflições do presente, valorizam a visão de futuro, coragem para fazer as mudanças, e conhecimentos em geral.

Para esses dirigentes, as reformas mais importantes são a tributária e a política. No desempenho de suas empresas o que pesa mais é a cultura interna e o capital humano, internamente, e a economia, porta para fora.

Outra constatação relevante da pesquisa é que há um ano, nenhum dos entrevistados considerava a possibilidade de se juntar suas empresas a outras e hoje esse entendimento ganha corpo. Ao contrário de uma queda dos que defendiam, no passado, a diversificação de negócios, como medida de recuperação.

E hoje, na cabeça desses dirigentes, e diante da disrupção monumental porque passa o mundo, as prioridades vão oscilando no correr dos dias, semanas e meses, com um mínimo de luz no final do túnel.

Colocam mais ou menos no mesmo nível a necessidade de uma dosimetria melhor em todas as ações de racionalização e revitalização da e na empresa; de melhorar os resultados no menor prazo possível, de conseguir graus maiores de unidade interna em pensamento e ação, de ganhos de eficácia operacional, de comunicação de excepcional qualidade com todos os stakeholders e perseguir incessantemente a inovação…

Ou seja, não é, não está, e não continuará fácil nos próximos meses.

Que a Abril saia da UTI e volte um dia a ser uma empresa saudável; que Exame continue cumprindo o extraordinário papel que vem cumprindo em todas as décadas de sua existência, e que nós, brasileiros, finalmente correspondamos ao presente que recebemos da natureza, com competência, trabalho, progresso e justiça social.

E que em 2019, o André escreva a Carta ao Leitor de Maiores & Melhores sem a pressão dos corredores de uma empresa na UTI.

FRANCISCO MADIA, especial para o MMM.

 

 

 

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