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Os engraxates

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“Todo sapato lindo dá em chinelo velho”.

PROVÉRBIO

Todos usavam sapatos de couro. Couro ou alguma outra matéria-prima parecida com, e que demandava cuidados mínimos e básicos. Assim, semana sim outra também, uma boa “engraxada” era mais que necessário. “Vai graxa, dotor!”

Quando as duas torres vieram ao chão no 11092001 descobriu-se que muitos engraxates brasileiros prestavam serviços aos executivos que  trabalhavam lá. Dentre outros, ANA MATEUS. Naquela manhã, mal chegou para o trabalho, entrou numa das torres, e um barulhão: a primeira torre perfurada mortalmente por um BOEING. Saiu de lá voando, emocionalmente abalada pelo que assistiria nos minutos/horas/dias seguintes, e dependente de tratamento psicológico por muitos meses. Dois anos depois, falando ao portal TERRA, disse, “Acredito que já superei aquele trauma de me perguntar por que tanta gente boa morre e tanta gente ruim continua viva. Hoje eu vivo mais na saudade dos amigos que perdi naquele acidente. Curei minha ferida espiritual na religião”. ANA perdeu boa parte de sua clientela. “VAI GRAXA, DOTOR!”

Nos centros da cidade de São Paulo alguns, poucos engraxates, ganham a vida. Não se trata de um negócio tão próspero como em passado recente, mas, ainda assim, dá pra tirar o sustento. É que os homens, principalmente os homens, mais principalmente os mais jovens, colocaram os sapatos de lado e migraram para a alternativa tênis e todos os seus derivativos. Foram do sapato social para o tênis, e agora, do tênis, para um calçado informal e no meio do caminho. Mas que prescinde da graxa, e demanda, no máximo, uma boa escovadela de manhã. Os engraxates começam a se despedir.

Dia desses o DIÁRIO DE S.PAULO foi documentar, em seu bairro a bairro, os engraxates do centrão. Registrou “os últimos engraxates”. Vestem-se como executivo – embora ninguém tivesse determinado que o fizessem, apenas para se parecerem com seus clientes e abrirem determinadas portas – terno, gravata e maleta 007 com o material. Os dois da matéria são chamados da mesma maneira “MARCELINHO”.

O primeiro MARCELINHO, ADVALDO MARQUES FLAUZINO, 30 anos, ganhou o apelido por se parecer com o jogador: “quando comecei, andava de short, chinelo e camiseta. Não me deixavam entrar em todo o lugar. Um dia me vesti melhor e imediatamente pude trabalhar em locais como fóruns e a Câmara Municipal”. O segundo MARCELINHO, FÁBIO RODRIGUES DE OLIVEIRA, 31 anos, se rebatizou MARCELINHO por sugestão do dono de uma fábrica de graxa.

Num mundo de um cotidiano sem gravatas, sem ternos, sem camisas sociais, sem sapatos de couro, gradativa e silenciosamente despedem-se alfaiates, camiseiros e engraxates. Com centenas de outras profissões e atividades foram ficando no passado e das quais as pessoas de hoje, a grande maioria, pura e simplesmente desconhece. Numa paisagem de NIKE, REEBOK, ADIDAS não existe mais lugar para os velhos e bons SCATAMACCHIAS, TERRA, SAMELLO… “de couro alemão”.

Por que querer mudar os outros, se é muito mais fácil mudarmos nós mesmos primeiro?

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