O fim dos empregos

Recuperei a paciência com as pessoas que trabalham no tal de telemarketing. Finalmente entendi – deveria ter entendido há mais tempo – que eles não têm nenhuma culpa pelo que dizem e fazem.

A culpa é das empresas que recorrem a essa plataforma e pela péssima qualidade do treinamento e preparo que oferecem a essas pessoas. Via de regra, primeiro ou único emprego.

Chegam aos grandes centros em busca de uma colocação e a única que encontram é operador de telemarketing. Levam de duas a três horas para chegar ao emprego e outro tanto para voltar para casa. Vivem aprisionadas num cubículo, e são xingadas algumas vezes por dia.

Hoje, os tais Call Centers são os maiores empregadores do país. Os números falam de um mínimo de 1,6 milhão a um mais que provável 2 milhões de vagas/operadores. Um negócio de R$ 7 bilhões/ano.

Assim, e por mais que Vivo, Net, Sky, Claro, e outros atormentem nossas vidas, antes de reincidir em grosseiras respiro e me lembro do ser humano que se encontra do outro lado.

Em verdade, todas as vezes que me destemperei e perdi a compostura era contra a empresa, mas descarregava naquele ser humano…

Enquanto isso, chega a inteligência artificial. E os quase 2 milhões de posições do maior empregador do país começam a desidratar, derreter, sumir. Não sobrará um único. O que fazer-se com esses 2 milhões de novos desempregados?

Leio agora o jurista e membro da Academia Pernambucana de Letras José Paulo Cavalcanti Filho.

Não, não conheço o jurista, apenas pesquisei no Google e veio o seu texto no Diário de Pernambuco.

Conta José Paulo: “Meu pai tinha devoção por Vitória. Uma escrevente do Tabelião Galba Pragana. Por sua enorme capacidade em transcrever longas minutas, nos livros. Com boa letra. Ligeira. E errando pouco. Apesar de velhinha. A chamava, por isso, de Rainha Vitória. Só que não há mais rainhas assim, no mercado. Substituídas que foram por computadores. Minutas são enviadas, pelos escritórios de advocacia, diretamente aos Cartórios. Lá, são só formatadas. Por outras Vitórias, terceirizadas, que nada escrevem. Já não há, nos Cartórios de hoje, livros físicos. Nem escreventes. A profissão desapareceu. Mais uma, entre tantas…”.

José Paulo lembra de notícias recentes, “A Ernst Young (Estados Unidos) acaba de tornar público estudo segundo o qual, em 2025, 1 em cada 3 empregos vai ser substituído por tecnologias inteligentes. E a Universidade de Oxford (Inglaterra) outro, similar, revelando que 47% dos empregos que hoje conhecemos vão desaparecer até 2040. Nada a estranhar. O físico Stephen Hawking antevê que “a ascensão da inteligência artificial irá provavelmente levar à destruição massiva dos postos de trabalho, sobretudo na classe média”.

E aí vem o homem mais criativo do mundo, talvez o último dos criativos e levanta a bandeira da Renda Mínima Universal, Elon Musk: “A automação levará o mundo inexoravelmente a criação de uma renda básica e mínima universal”.

É esse o mundo que vivemos. Nos encantando, dia após dia, com as conquistas da tecnologia e a possibilidade de permanecermos conectados e vivos 24 X 24. E pouco preocupados com a quantidade de amigos e parentes desempregados que vão se empilhando ao nosso redor, atropelados pela mesma e fantástica tecnologia.

Perdendo uma quantidade enorme de energia, tempo e dinheiro acreditando tola e estupidamente que se mantivermos o Brasil aprisionado a uma legislação trabalhista da época do facismo preservaremos o tal de emprego.

Como garantir-se, através do papel e das leis, o que a realidade está acabando de vez e para sempre?

A questão, daqui para frente, é como sobreviveremos. Como ocuparemos nosso tempo, competências, habilidades e conhecimento no admirável mundo novo em processo de construção? Abençoados, ou vítimas, da tecnologia?

Durante as últimas 4 décadas, a cada novo domingo, o Estadão veio nos avisando pelo emagrecimento recorrente de seus cadernos especializados – no passado eram muitos – que os empregos definhavam.

Agora chegam ao fim. Vamos continuar esperando o que jamais virá?

FRANCISCO MADIA, especial para o MMM (Landmarketing nº950)