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O bom ladrão

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Henry Sobel nasceu em Lisboa, em 9 de janeiro de 1944, e permaneceu no Brasil por mais de 40 anos. Presidiu o Rabinato da Congregação Israelita Paulista até outubro de 2007, quando pediu seu afastamento. Principal porta-voz da comunidade judaica no país, junto com Dom Paulo Evaristo Arns e o pastor presbiteriano Jaime Wright ofereceu contribuição inestimável para a publicação do livro BRASIL NUNCA MAIS.

Dois fatos, de forma especial, marcaram sua trajetória. Defensor intransigente dos Direitos Humanos recusou-se a enterrar o jornalista Wladimir Herzog na ala de suicidas do Cemitério Israelita, por não aceitar a versão oficial da polícia. E, no dia 23 de março de 2007, foi preso por furtar gravatas em uma loja na cidade de Palm Beach, nos Estados Unidos.

No momento em que finalizava seus preparativos para sua mudança para Miami, concedeu entrevista histórica, emblemática e exemplar para Laura Greenhalgh, de O Estado de São Paulo. E nessa entrevista, deu sua versão oficial e final do que aconteceu naquele dia em Palm Beach.

“Por favor, coloque no papel o que trago no coração, porque vou falar de algo pela primeira vez. Antes não havia tido coragem nem vontade. Aquele foi um episódio desgastante, cheguei a pedir desculpas diante das câmeras das principais emissoras de TV do Brasil. Também tratei do assunto em livro autobiográfico. Falei em problema de saúde e no uso de um medicamento para dormir, o Rohypnol. O remédio teria me levado a cometer atos impensados. Ontem à noite, às vésperas desta entrevista e com o distanciamento que o tempo proporciona, decidi que não posso mais atribuir o que houve a fatores externos. Para ser e me sentir honesto, admito que cometi um erro… Uma falha minha moral. E peço perdão. É bom ser perdoado. Quando eu era menino, sempre que cometia um erro, podia contar com a compreensão, ternura e perdão dos meus pais. Lembro de ter a sensação de um peso tirado do coração, uma gostosa certeza de ser aceito. Quando cresci foi minha vez de conceder perdão aos meus pais pelos erros e fraquezas, fossem reais ou frutos de minha imaginação. Compreender nossos pais e perdoá-los por serem menos perfeitos do que gostaríamos, é natural no processo de amadurecimento. Lembro das críticas se abrandando, os ressentimentos se dissolvendo, a consciência do afeto libertando a alma. É bom perdoar. E é muito bom perdoar a si próprio”.

Despediu-se, dizendo, “Acertei e errei muito. Agora vou dedicar tempo a mim. O perdão vai ocupar boa parte de meus dias.” Laura ainda perguntou ao rabino como conseguira chegar a aceitação dos fatos. E Sobel, disse, “Eu era muito intolerante comigo quando me tornei rabino. O auto julgamento sempre foi severo e o sentimento de culpa, duradouro. Finalmente consegui me conscientizar de que o rabino é humano, portanto, falível. O incidente das gravatas é do conhecimento público, não preciso entrar em detalhes aqui… Tento me perdoar, o que não é fácil, porque perdoar não é esquecer. Se fosse, não haveria mérito no perdão”.

No momento em que tantos se preocupam com sua Marca, Henry Sobel nos oferece uma lição definitiva de como reconstruir-se, e, reconstruí-la. Obrigado e adeus, rabino Henry Sobel, o bom ladrão. Jamais nos esqueceremos de sua derradeira lição. E vá em paz, homem de Deus.

No dia 5 de julho de 2019, meu querido amigo Saul Faingaus Bekin, compartilhou comigo o seguinte texto, de autoria de Henry Sobel, Urgência de Viver

“O que você fez HOJE é muito importante, porque você está trocando um dia de sua vida por isso. Esperamos demais para fazer o que precisa ser feito, num mundo que só nos dá um dia de cada vez, sem nenhuma garantia do amanhã. Enquanto lamentamos que a vida é curta, agimos como se tivéssemos à nossa disposição um estoque inesgotável de tempo. Esperamos demais para dizer as palavras de perdão que devem ser ditas, para pôr de lado os rancores que devem ser expulsos, para expressar gratidão, para dar ânimo, para oferecer consolo. Esperamos demais para ser generosos, deixando que a demora diminua a alegria de dar espontaneamente.
Esperamos demais para ser pais de nossos filhos pequenos, esquecendo quão curto é o tempo em que eles são pequenos, quão depressa a vida os faz crescer e ir embora. Esperamos demais para dar carinho aos nossos pais, irmãos e amigos. Quem sabe quão logo será tarde demais? Esperamos demais para ler os livros, ouvir as músicas, ver os quadros que estão esperando para alargar nossa mente, enriquecer nosso espírito e expandir nossa alma. Esperamos demais para enunciar as preces que estão esperando para atravessar nossos lábios, para executar as tarefas que estão esperando para serem cumpridas, para demonstrar o amor que talvez não seja mais necessário amanhã. Esperamos demais nos bastidores, quando a vida tem um papel para desempenhar no palco.
Deus também está esperando nós pararmos de esperar. Esperando que comecemos a fazer agora tudo aquilo para o qual este dia e esta vida nos foram dados”.

É hora de VIVER! Rabino Henry Sobel

Assim, e uma vez mais, e a propósito de seu passamento no dia 22 de novembro de 2019, na Florida, além de agradecer pela inesquecível lição, repito,

Vá e descanse em paz, homem de Deus.

 

 

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