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Manoel, Joaquim, Picasso, Da Vinci, Perto…

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“Chegue bem perto de mim. Me olhe, me toque, me diga qualquer coisa. Ou não diga nada, mas chegue mais perto. Não seja idiota, não deixe isso se perder, virar poeira, virar nada”.

Caio Fernando Abreu

O recado é mais ou menos o seguinte. Querem me ver? Tudo bem, mas, venham aqui. Não viajo mais. As viagens acabam comigo e ainda não transmitem minha intensidade por me retirarem de meu contexto; onde os significados são outros.

Agora é assim. Muitas das mais importantes obras de arte dos museus cancelaram passaportes e não viajam mais. Quem quiser ver in loco vai ter que viajar. Ou entrar nos infinitos museus digitais, muito especialmente o do Google, onde, sem sair de casa, poderá ficar horas, dias, semanas, contemplando uma mesma obra, e vendo nuances absolutamente impossíveis de serem vistas presencialmente. Questão de recursos e tecnologia. Mas, claro, não é a mesma coisa.

Nos últimos meses, a obra mais vista nas publicações do mundo inteiro era a Garota com Brinco de Pérola, de Vermeer. Andou passeando e se exibindo no Japão, Estados Unidos e Itália. Regressou à base, Holanda, onde nasceu Vermeer. Agora e para todo sempre no Mauritshuis, Haia, onde centenas de turistas formam longas filas apenas para ver aquela garota, aquele olhar, aquele brinco, aqueles lábios vermelhos, que insinuam histórias de todos os matizes, exacerbadas a partir do filme com Scarlett Johansson e que converteram a obra, do dia para a noite, na “Mona Lisa do Norte”.

Já Guernica deixou de circular a pedido de Picasso, antes de morrer, devido a seu tamanho. Precisava ser enrolada e não se enrola uma obra de arte impunemente. Já a verdadeira Mona Lisa continuará para sempre no Louvre, porque sensível as mudanças climáticas, em termos de “saúde física”, e à bilheteria de 9,3 milhões de turistas que visitam o museu anualmente em busca daquele sorriso; sorriso? E aí trata-se de “saúde financeira”.

Por razões opostas – mas que produzem resultado semelhante – os consumidores de hoje, nós, recusam-se a longas distâncias e caminhadas. Para preservarem, também, suas saúdes físicas e financeiras. Finalmente conscientizaram-se que a principal moeda que dispõe, a cada dia, semana, mês, ano, vida, é o tempo. O mesmo de sempre e para sempre – dias de 24 horas que se reduzem a 6 ou 7 aproveitáveis, tirando-se as 6 em que dormem – que vazam na distância de ruas e avenidas abarrotadas de carros e pessoas.

Assim, aprendemos a monetizar o tempo. E fazendo as mesmas coisas que fazíamos da maneira de sempre, a única certeza era de que ano após ano teríamos menos moeda tempo em nossas carteiras, cartões, vida. E aprendemos a valorizar o Perto. A vizinhança. O comércio, o cinema, o shopping, a venda. Não só as lojas que receberam esse nome em passado distante, mas tudo, absolutamente tudo ganha o timbre Conveniência. E ainda, e por andar a pé, a redescoberta de muitos encantos escondidos – pelo nosso distanciamento – das coisas, pessoas e paisagens de nossa vizinhança. Inclusive dos donos das vendas, Manoéis e Joaquins, queridos amigos que nem mesmo nos lembrávamos se continuavam vivos.

Continuam, e nos recebem, de volta, com alegria, emoção, e carinho. Para eles, valeu a pena ter esperado; para nós, termos nos reencontrado.

*Francisco Alberto Madia de Souza é advogado, Diretor Presidente e Sócio do MadiaMundoMarketing e Presidente da Academia Brasileira de Marketing (ABRAMARK).

Imagem: reprodução

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