Invasão Holandesa

1 de novembro de 2017.  Além de ser o Dia de Todos os Santos, é onde, e supostamente, começou a Invasão Holandesa às terras de Ambev.

E a Ambev, de acordo com sua cultura e tradição, mais que claro que vai lançar todos os seus petardos a partir de todos os próximos meses e anos de tal forma que atenue todos os eventuais prejuízos da Invasão Holandesa.

No dia 31 de outubro, terminou a união de anos entre distribuidores Coca-Cola e a Heineken.  Acordo esse decorrente da compra da Femsa pela empresa holandesa no dia 11 de janeiro de 2010.

Mais recentemente a Heineken comprou a Brasil Kirin, ex – Schincariol, e que trouxe uma rede própria de distribuição embarcada.  Assim deixou de usar os distribuidores Coca-Cola, que tratavam a cerveja holandesa como produto secundário, ou,  coadjuvante medíocre.

Com a compra da Femsa e da Brasil Kirin a Heineken totalizava 20,7% de participação de mercado, contra 67,5% da Ambev no dia 31 de dezembro de 2016. E de lá para cá os números não mudaram de forma significativa.

Pela primeira vez na história, um único concorrente da Ambev tem 20 pontos de mercado. Antes, esses mesmos 20 pontos estavam divididos pelos dois concorrentes comprados pela Heineken. O que, em meu entendimento, facilita para a Ambev digladiar com um único competidor.

Os perfis das duas empresas são radicalmente diferentes.  O da Ambev todos sabem como é. Meritocracia Radical, ou, os fins justificam os meios e garantem Bônus. Vale enfiar o dedo nos olhos, chutar a canela, cuspir no rosto, xingar a mãe.

Já a Heineken, e conforme matéria de capa da Época Negócios do mês de agosto de 2017, uma Lady.

Confiram, nas palavras de Freddy Heineken, neto do fundador Gerard, e responsável pela globalização da empresa:

“Não planejo por cinco anos, penso em gerações”, ou,

“Eu dirijo uma empresa, não a bolsa de valores”, ou,

“A empresa está nas mãos da família há mais de 150 anos, e provavelmente estará nos próximos 100. Assim, não pensamos por trimestres…”, ou,

“A marca está sempre em primeiríssimo lugar. Não vamos atrás de volume a qualquer preço”, ou,

“Não nos preocupamos apenas com os resultados de 2017; e sim com os de 2027, 2037…”.

“A Heineken é uma empresa em que a educação e a colaboração entre as funções é muito valorizada. Somos uma empresa mais de marcas do que de vendas…”

Já o outro lado, a Ambev, é suficiente entrar na internet para se conhecer a educação e estilo.

Por exemplo, portal ERA – Ética e Realidade Atual – Coordenado pelos Professores Danilo Marcondes de Souza Filho e Noel Struchiner, e Projeto Institucional da PUC-Rio e reúne os departamentos de Filosofia, Direito e Administração, contando, ainda, com o financiamento da Finep. Chamada: “Ambev: Assédio moral é baluarte de estilo vitorioso”… E, no texto:

“Apesar de estar listada entre as 100 melhores empresas para trabalhar no Brasil, de acordo com o Instituto Great Place to Work, muitos funcionários são extremamente insatisfeitos com o estilo de gestão da Ambev, e a quantidade de processos trabalhistas é bem grande. Isto porque ela adota uma filosofia de trabalho baseada em metas, com foco total nos resultados e na eficiência.

Assim, busca, ao máximo, cortar gastos e associar o ganho financeiro de seus empregados à produtividade e ao desempenho nas vendas. Essa postura acaba, muitas vezes, criando um ambiente violentamente competitivo, expondo as pessoas que lá trabalham a situações humilhantes que violam sua dignidade. Por conta disso, diversas são as ações movidas contra a empresa por assédio moral”.

E ilustra com exemplos:

“No Sergipe há uma reclamação trabalhista de alguns anos atrás em que um ex-empregado alega que era obrigado, caso não cumprisse os objetivos determinados, a fazer flexões até a exaustão com o chefe lhe pisando as costas”. Além disso, companheiros seus relataram que um de seus supervisores portava arma de fogo e chegou a dar tiros no emblema da concorrente.

Em fevereiro de 2017, a Ambev teve recurso negado para anular uma condenação da Justiça por obrigar funcionários que não cumprissem metas a se deitarem em caixões, sendo às vezes representados por ratos e galinhas enforcados na sala de reunião.

Um ex-empregado de Minas Gerais, que recebeu sentença favorável do TST por assédio moral, contou que os vendedores eram obrigados a usar saias, capacetes com chifres, usar batom, e a ouvir xingamentos dos superiores.

Em 2004, a empresa foi condenada a pagar R$ 21.6 mil em danos morais por obrigar o autor da ação a passar por um “corredor polonês” enquanto era xingado quando não cumpria as metas.

“Ainda, quem se recusava a entrar no tal “corredor” era obrigado a vestir uma saia e desfilar em cima de uma mesa…”. E por aí vai.

Assim, e em campo, a Dama e o Cafajeste. Claro que no curto e médio prazo o Cafajeste vai dar de goleada. Mas, no longo prazo, tal como na fábula da tartaruga e do coelho, a Dama prevalecerá.

Isso posto, todos atentos. Soou a campainha e vai começar o primeiro round, para a Ambev, ou apenas o primeiro ato, para a Heineken.

FRANCISCO MADIA, especial para o MMM.