Franklin Foer e o “Gafa Quartet”

No Festival Piauí Globonews de Jornalismo do ano passado, Franklin Foer foi um dos palestrantes. Naquele momento acabara de renunciar ao cargo de editor chefe da revista TNR – The New Republic, publicação centenária e que fora comprada por Chris Hughes, um dos fundadores do Facebook.

Em sua manifestação no evento, Franklin, disse: “O Vale do Silício acredita, entre outras coisas, na quantificação de dados para medir o sucesso de um conteúdo:

…se você não consegue aferir o sucesso, isso significa que você não tem sucesso.

…Quando dispomos de padrões, tendemos a repetir a mesma fórmula sempre.

…O tráfego na internet é como a heroína: é impossível parar a partir do momento em que se experimenta.

…Todos ficam analisando dados e impondo essa cultura quantitativa.

É preciso resistir”.

Fez-se o silêncio. Não chegara o momento de discutir-se em profundidade e a exaustão o tema.

Mas, o recado calou fundo. E no final de janeiro de 2018, Foer retornou ao Brasil para pautar seu livro “Mundo Sem Mente”.

Em suas manifestações, Foer registra com incomum acuidade e consistência, o embate deste ano de 2018. Google e Facebook versus instituições formais de todos os países.

Instituições se manifestam bradando que a hora de acabar com a farra chegou. Enquanto, e simultaneamente, as plataformas analógicas de comunicação revelam-se asfixiadas e prestes a falecer.

Franklin Foer, 43 anos, foi entrevistado por Patrícia Campos Mello da Folha. Vamos conferir e refletir sobre algumas de suas declarações:

1 – “Google e Facebook são portais de informação. Não existe isenção nas informações que exibem. Se você quer comer e busca restaurantes no Google naturalmente estará, até mesmo pela cultura e aprendizado, a escolher o restaurante que aparece em primeiro lugar, ou dentre os que aparecem na primeira página. Isso vale para a escolha do plano de saúde, para o sentido da vida, e sobre a existência de Deus. A informação que vemos primeiro molda nossa opinião“.

O que está dizendo Foer?

Que a matéria-prima de nosso processo de formação de opinião, não decorre nem de motivos aleatórios ou democráticos, ou de quem colocou-se primeiro  na fila. Decorre de uma seleção realizada pelos algoritmos, a partir de nosso comportamento, e ponderada pelo dinheiro que os interessados na divulgação da informação colocaram para que aparecesse antes de todas as demais.

2 – Exemplo de um Mundo direcionado pelos algoritmos:

“A Netflix usa algoritmos para recomendar filmes que seriam compatíveis com nossas experiências e movimentações na plataforma de streaming. Mas, de verdade, a Netflix vai sempre recomendar preferencialmente, filmes menos conhecidos, porque esses filmes custam menos para a Netflix em termos de direitos de exibição, do que os Blockbuster, possibilitando uma rentabilidade maior”.

3 – Predadores: “Google e Facebook usam seu poder para prejudicar quem produz para eles – empresas de conteúdo e agências de propaganda. Sugaram todo o dinheiro que costumava ir para jornais, revistas e sites. Mediante política de preços predatória impossibilitando e inviabilizando a competição…”.

4 – Tempos melhores pela frente – “Facebook e Google estão, neste momento, reconsiderando o poder que hoje acumulam. As empresas de mídia, por sua vez, reconsiderando o pacto que celebraram com os dois diabos. Diante das graves denúncias que vêm servindo a manipulações criminosas nos últimos anos, e de forma mais emblemática nas eleições presidenciais dos Estados Unidos, os dois gigantes querem distância no negócio de notícias”.

Assim, e gradativamente, o divórcio de um casamento que durou poucos anos, mas causou danos dramáticos e irreparáveis está em curso.

E por que danos dramáticos e irreparáveis?

5 – Jornais e Revistas caíram na armadilha – “Por mais incrível que possa parecer, as principais plataformas de comunicação tornaram-se dependentes do ”Feice” para tráfego e faturamento. E isso, distorceu a forma de trabalhar dos editores, abrindo mão da qualidade e privilegiando matérias geradores de cliques”.

Perversão radical e na veia! Mais que na hora da mídia voltar a trabalhar por seus leitores e assinantes, e se libertar dos algoritmos.

6 – Exemplo da doença. “Todos os editores sabiam que Donald Trump era uma piada. Mas também sabiam que Trump mexia com a ansiedade das pessoas e até aquelas que o odiavam iriam clicar em matérias como as em que ele duvidavam da certidão de nascimento de Barack Obama. E assim, e no desespero da sobrevivência e necessidade de cliques, converteram-se em disseminadoras de fake News… Uma espécie de retroalimentação do crime ao infinito…”.

Antes de vir ao Brasil, e concedendo entrevista a uma publicação americana, FRANK alertou, “Há três ou quatro empresas, de presença avassaladora no mundo da tecnologia, que controlam com força incrível várias coisas em nossa sociedade: Os europeus chamam essas empresas de Gafa: Google, Amazon, Facebook e Apple. Há várias razões pelas quais essas empresas suscitam tanta ansiedade e que me levaram a fazer perguntas difíceis a elas”.

A primeira delas diz respeito ao acúmulo de dados. A segunda é a maneira pela qual os dados são aproveitados. Estamos no reino dos algoritmos, da aprendizagem de máquina e da inteligência artificial, em que as vantagens creditadas às empresas que têm o domínio sobre essas coisas acabam aumentando ao longo do tempo.

Portanto, cresce a lacuna entre as quatro grandes e o restante. Talvez já tenhamos chegado ao ponto em que as demais empresas tenham desistido de persegui-las. No Vale do Silício, a grande ambição hoje em dia não é mais desbancar o Google ou o Facebook. “É ser comprado pelo Google e pelo Facebook…”.

Assim, mais que chegou a hora de rediscutirmos até onde aceitamos conviver com a ditadura e poder dos mega players do digital. Ou, se e definitivamente, não aceitamos nada. Ou damos um basta ou nos tornamos escravos para sempre. Ainda que, e ingenuamente, tivéssemos acreditado que nos últimos anos fizemos nossas escolhas de forma isenta e independente, e não fomos conduzidos e direcionados.

Em síntese, estamos virando gado…

FRANCISCO MADIA, especial para o MMM.