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“Falem mal, mas falem de mim”

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Supostamente, essa frase teria sido criada e dita pela extraordinária intérprete do samba brasileiro, Aracy de Almeida. Se esse tipo de comportamento, no entendimento de alguns, eventualmente resultava em pontos positivos no processo de construção de imagem e marca, no Branding, dentro da tese de que primeiro é preciso chamar a atenção das pessoas, custe o que custar, e, depois, com a atenção conquistada, arredonda-se, adocica-se, e transmite-se o verdadeiro posicionamento que levará a marca ambicionada, isso revela-se completamente… Errado!

Chamar a atenção sobre si por péssimos ou polêmicos motivos é mais que tiro no pé, é suicídio. Muitas vezes morrer sem ter mesmo nascido. As pessoas não têm mais tempo e muito menos paciência para embarcarem em roubadas. E se caem, e quando caem, descoberto o logro ficam ensandecidas. E não há mais a menor possibilidade de arredondar ou adocicar o que quer que seja. Passa a ter, dentro delas, o vírus da rejeição, da revolta, da indignação de quem tentou enganá-las. Ou recorreu a artifícios tóxicos apenas para chamar a atenção.

Todo esse comentário inicial para falar sobre um fashion designer consagrado pela imprensa brasileira, porque além da sua qualidade e talento, produz ruídos e gera manchetes e matérias, repercute, sem jamais conseguir traduzir seus foguetórios em resultados de verdade. Consistente, lucrativos, duradouros.

Refiro-me ao fashion designer mineiro, Ronaldo Fraga e que, no ano passado, e uma vez mais, ocupou todas as luzes e holofotes da São Paulo Fashion Week, conforme descrição dos jornalistas da Folha, Pedro Diniz e Giuliana Mesquita…

“São tempos bicudos para gays, negros, mulheres ou qualquer um que desafie o status quo. Com esse entendimento Ronaldo Fraga vê a moda como um papel em branco para fazer seu manifesto e, ao mesmo tempo, versar sobre a beleza… Para seu show o estilista mineiro alvejou de tiros parte de sua coleção, exatos 20 dias depois do Exército atirar 82 vezes contra o carro de uma família no Rio de Janeiro. Inspirado em Guerra e Paz do pintor Candido Portinari, Fraga destilou sangue pelos looks…”, e por aí vai.

Dá certo esse tipo de atitude e comportamento no Branding? Definitivamente não. É o caminho mais curto, rápido e eficaz de mergulhar uma marca na lama da rejeição e distanciamento. Mais ou menos como sacar o revólver e dar um tiro para o ar durante um minuto de silêncio, ou jogar uma pedra na janela do carro que transporta o morto, durante a cerimônia de um enterro… E por aí vai.

Consegue-se, por breve momento, a atenção total. Provoca-se o choque. Seguido de profundo incômodo e maior constrangimento. A atenção total para uma iniciativa absolutamente fora da hora e do lugar. E tudo o que resta  lembrando que o verdadeiro Branding é soma consistente, positiva e encantadora de centenas de milhares de pequenos gestos, sinais e códigos de comunicação , é apenas a desconfortável e péssima impressão de um barulho inoportuno e desagradável, fora de tempo, lugar e propósito, num espaço onde as pessoas foram para se divertir, informar, encantar, admirar, sonhar.

Estou convencido que Ronaldo Fraga é um fashion designer de grande talento e competência. O trabalho de pesquisa que faz para embasar e criar suas coleções é da maior qualidade e sobre todos os aspectos admirável.

Mas insiste em esconder-se atrás dos gritos e explosões fora de hora que provoca em pessoas desejosas de beleza e encantamento.

Assim, amigos, jamais recorram ao negativo para tentar construir o positivo. Riscos insuportáveis. 99% de chance de fracasso, algumas vezes, tragédias. Acreditem no que supostamente teria dito Aracy de Almeida, no “Falem Mal, Mas Falem de Mim”. Invistam sempre e todas as moedas no Falem de mim pela ótima impressão que sou capaz de causar.

E o Ótimo não nasce, floresce e prospera no Péssimo. Nem mesmo nasce. Jamais se esqueçam do ensinamento definitivo do poeta inglês John Keats, “A thing of beuty is a joy forever…”.

Na tradução de Augusto de Campos:
“O que é belo há de ser eternamente uma alegria, e há de seguir presente.
Não morre; onde quer que a vida breve
Nos leve, há de nos dar um sono leve,
Cheio de sonhos e de calmo alento”.

Em tempo, dias depois do desfile Ronaldo Fraga declarou ao jornal O Globo: “se pudesse voltar no tempo não faria…”.

 

 

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