Estudante encontra carta escrita por Galileu Galilei para evitar Inquisição

A carta do astrônomo foi escrita a um amigo, na qual, ciente do perigo, o astrônomo, matemático e físico modificou um texto que ele mesmo tinha escrito para tentar evitar um confronto com a Igreja Católica

Quase quatro séculos depois que Galileu Galilei foi condenado pela Inquisição por heresia, surgem novos detalhes sobre o caso. Salvatore Ricciardo, um estudante de pós-graduação da Universidade de Bergamo, encontrou em um arquivo da Royal Society a carta do astrônomo a um amigo, na qual, ciente do perigo, o astrônomo, matemático e físico modificou um texto que ele mesmo tinha escrito para tentar evitar um confronto com a Igreja Católica, que o condenou Galilei em 1633, após uma batalha de quase 20 anos entre o astrônomo italiano e o Vaticano. Galileu Galilei passou os últimos anos de sua vida sem sair de casa, até sua morte, em 1642.

Há duas versões diferentes da carta, a que foi enviada à Inquisição em Roma e outra com uma linguagem mais sutil. A carta, que contém rasuras e correções, foi escrita e alterada pelo próprio Galilei entre 1613 e 1615, assegura Ricciardo.

Em uma primeira versão dos escritos, o físico combate a doutrina geocêntrica. Ditada pela Igreja Católica, ela pregava que o Sol girava em torno da Terra, e não o contrário, como se confirmou posteriormente. Veja abaixo:

Carta manuscrita de Galileu Galilei (1564-1642) a Benedetto Castelli, datada de 1613. Foto: The Royal Society

A carta foi destinada a Benedetto Castelli, amigo de Galileu e matemático da Universidade de Pisa, na Itália. Nela, Galilei afirma que como na Bíblia há poucas referências à astronomia, estas não devem ser tomadas ao pé da letra porque foram simplificadas para que as pessoas as pudessem entender. Mais importante que isso, Galileu diz que a teoria heliocêntrica formulada por Copérnico 70 anos antes não era incompatível com a Bíblia.

Pintura retrata o julgamento de Galileu no Vaticano; ele foi condenado à prisão domiciliar. Foto: Getty Images

Em um artigo sobre a descoberta de Ricciardo, a revista Nature diz que, no documento, Galilei “expõe pela primeira vez seus argumentos de que a pesquisa científica deve estar livre da doutrina teológica”. Os historiadores acreditavam que a carta havia desaparecido, mas para Ricciardo, ela esteve o tempo todo no catálogo da Royal Society – arquivada, porém, em um lugar errado.

Numa época em que a maioria das pessoas acreditava que a Terra era o centro do universo, essa nova hipótese era revolucionária – mas também problemática. Galileu já havia apoiado publicamente a teoria do astrônomo polonês Nicolau Copérnico de que o Sol estava no centro do Sistema Solar.

Confira abaixo a versão corrigida:

Carta encontrada por Ricciardo com rasuras e correções nos do físico italiano. Foto: The Royal Societ

Dias depois de Lorini ter enviado a carta transgressora ao Vaticano, Galilei escreveu ao clérigo Piero Dini, em 16 de fevereiro de 1615, dizendo-lhe que a versão nas mãos da hierarquia da Igreja poderia ter sido alterada.

Galileu anexou a Dini uma versão maios branda da primeira carta, assegurando-lhe que esta era a correta e pedindo que ela fosse enviada aos membros do Vaticano.

Até agora, os pesquisadores não sabiam até que ponto a cópia de Lorini teria sido “alterada”, mas, de acordo com a descoberta de Ricciardo, Galilei teria escrito os dois textos.

Na versão de Lorini, o físico italiano diz que algumas afirmações na Bíblia “são falsas se alguém é guiado pelo significado literal das palavras”.

Na versão suavizada, Galilei riscou a palavra “falsas” e a substituiu por “distintas da verdade”.

“A carta de sete páginas fornece a mais forte evidência até agora de que Galileu estava ativamente envolvido no controle de danos (de divulgar suas idéias) e tentou espalhar uma versão atenuada de suas afirmações”, diz o texto no site da Nature.

Em parceria com os pesquisadores Franco Giudice, da Universidade de Bérgamo, e Michele Camerota, da Universidade de Cagliari, Ricciardo comparou o manuscrito com outros que o astrônomo italiano escreveu na mesma época e confirmaram que a versão original também pertence a ele. Ricciardo publicará um artigo científico sobre suas descobertas em breve.

Via: BBC

 

 

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