DESAPEGO

Vivemos um momento único de desapego na história da humanidade. Durante décadas ou séculos, o sentido do fluxo. Fomos comprando, guardando, comprando mais, precisando de mais espaço, guardando, comprando, como se isso fosse um comportamento minimamente esclarecido, lúcido, civilizado.

Nada de uma mudança cultural radical. Apenas uma sucessão de fatos e circunstâncias e começamos a ganhar mobilidade e leveza. Com o tempo, passamos a usar mais algumas coisas, menos outras, com diferentes graus e intensidade de Apegos.

Mais apegados a alguns objetos; menos apegados a outros, mas, e mesmo em relação aos menos apegados, o medo de um dia precisarmos e não tê-los próximos e disponíveis.

E assim, fizemos de nossas vidas, casas, pessoas, sentimentos, um amontoado de irrelevâncias, tralhas, supérfluos desnecessários.

Assim, e sem que nos déssemos conta, fizemos de nossas casas, móveis, gavetas, cantos… Depósitos, grandes armazéns de inutilidades. Discos, DVDs, Cds, Enciclopédias, copos, talheres, pratos, meias, tênis, bolas, raquetes, triciclos, bicicletas, esteiras e infinitas outras Inutilidades Domésticas e muito mais.

E agora, todos e todas substituídas por serviços onde é suficiente a possibilidade e a capacidade de acessar. Tá lá, disponível. Quando você precisa, usa, paga e devolve. Do outro, e decorrência do primeiro, a busca por espaços menores, na jurídica e na física.

E assim, e mesmo outros objetos que relutamos burramente em abrir mão, decidimos carregar conosco para espaços que não existem mais, e agora permanecem estáticos e olhando para nós na expectativa de alguma forma de despertar.

Conclusão: crescem e prosperam os serviços de Storage, de guarda de tralhas e de tudo aquilo que nossa razão diz que jamais precisaremos, mas nossos sentimentos sussurram, vai que um dia você precise…

Crescem e multiplicam-se os negócios de storage nas grandes cidades do país, muito especialmente na cidade de São Paulo. Nos últimos anos a taxa de crescimento anual é superior a 10%. E, dentro do Storage, o negócio que mais cresce é o self storage.

Pequenas casas que foram adaptadas nas diferentes regiões da cidade com centenas de box para guarda de diferentes tipos. A pessoa leva o que pretende guardar, é identificada, entra, abre sua gaveta ou box, e deixa lá aquele objeto que tem certeza que vai precisar. Mesmo sabendo que a possibilidade de isso acontecer é inferior a 1%.

Descondicionar-se o Ser Humano, talvez seja um dos maiores desafios da humanidade. Ou, uma quase impossibilidade absoluta.

E vocês, como estão convivendo com os novos tempos? Já procederam à operação desapego? Descarte amplo, geral, corajoso, determinado e irrestrito?

Durante o processo machuca e dói. Mas depois, a sensação de leveza e mobilidade é de tal ordem que mais que compensa a tristeza da separação. De infinitas tralhas que apenas permaneciam fisicamente próximas, mas das quais já tínhamos nos separado há anos ou décadas e jamais nos demos conta.

Desapegue-se. Só faz bem. Rejuvenesce, estimula, e abre espaço para tudo o que é, no atual momento de nossas vidas, infinitamente mais relevante.

Desapegue-se, e volte a sentir o gostinho da felicidade.

“De ser lindo, leve e solto, Abrindo suas asas, E, Soltando suas feras…”.

Livre-se daquele monte de quinquilharias e inutilidades que só o remetem para trás.

“Barcos contra a corrente, – conforme nos ensinou Scott Fitzgerald -, arrastados incessantemente para o passado…”.

 

 

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