Coca-Cola influenciou pesquisas que tinham seu patrocínio, revela estudo

Artigo mostra que multinacional tinha controle sobre os dados científicos e divulgação de resultado

Recente estudo científico publicado na Revista de Políticas de Saúde Pública (Journal of Public Health Policy) constatou que a Coca-Cola influenciou pesquisas acadêmicas que tiveram seu patrocínio comercial. O trabalho dos pesquisadores, publicado neste mês, analisou a influência e a transparência das pesquisas acadêmicas patrocinadas pela multinacional.

O resultado da investigação científica está no artigo que leva o título Sempre leia as letras miúdas: um estudo de caso de financiamento, divulgação e acordos de pesquisa comercial com a Coca-Cola. Em inglês: “Always read the small print”: a case study of commercial research funding, disclosure and agreements with Coca-Cola.

O artigo científico contou com 87.013 páginas de documentos obtidos por meio de pedidos de acesso à informação em diferentes países (Austrália, Canadá, Dinamarca, Estados Unidos e Reino Unido), assim como cinco acordos entre a companhia e instituições públicas dos Estados Unidos e do Canadá; além de grande quantidade de correspondências correlatas.

Em 2018, a Coca-Cola publicou uma lista de transparência dos pesquisadores que foram por ela financiados entre 2010 a 2017, no intuito de afirmar publicamente o seu compromisso com a transparência nas pesquisas. Além disso, a companhia também divulgou sua lista de parcerias e de financiamento de pesquisas, declarando que:

  • 1 – Os pesquisadores tinham o total controle do desenho, execução, análise e interpretação da pesquisa;
  • 2 – Os pesquisadores eram encorajados a publicar, sendo que a Coca-Cola não tem o direito de impedir a publicação dos resultados da pesquisa;
  • 3 – A Coca-Cola não condiciona o financiamento ao resultado da pesquisa; dentre outras afirmações.

Em seu site, a empresa apresenta tais afirmações em torno de suas pesquisas financiadas desde 2010. As intenções outrora declaradas foram de encontro as suas reais práticas.

Nos seus acordos comerciais de financiamento de pesquisas, a Coca-Cola tem cláusulas contratuais que possibilitam o direito de revisar a pesquisa (em andamento) a qualquer tempo, bem como o controle sobre os dados do estudo e divulgação dos resultados. Em alguns destes acordos, a companhia tem a última decisão sobre qualquer publicação dos artigos revisados (em fase final de aprovação), exigindo a permissão para publicação por escrito, sendo, esta, anterior ao relatório final a ser enviado para a empresa.

Além disso, segundo o artigo científico, a Coca-Cola exige relatórios e contribuições regulares em projetos, bem como mantém a capacidade de rescindir os contratos com antecedência e sem motivo algum.

A análise minuciosa dos documentos permitiu a constatação de evidências sugerindo que a Coca-Cola exerceu influência sobre o desenho, a condução e a redação dos estudos, mantendo o direito de comentar e de ter contribuições durante todo o andamento da pesquisa.

Além disto, embora a multinacional não pudesse interromper a publicação, as disposições contratuais de rescisão permitiam a não publicação da pesquisa por rescisão contratual. Por isso, em vários casos, poderia exigir a devolução ou destruição de todas as informações confidenciais, bem como a retirada de todos os documentos e materiais de pesquisa, incluindo os trabalhos incompletos.

Os dispositivos de rescisão também permitiam à Coca-Cola a repressão dos estudos desfavoráveis aos seus interesses, bem como pressionar os pesquisadores com a ameaça de rescisão. Em pelo menos um estudo, descobriu-se evidências de interrupção do financiamento sem motivo aparente.

Conclusão

O estudo científico concluiu que, embora os acordos contratuais de patrocínio da Coca-Cola não tivessem disposições que garantissem à empresa controle absoluto sobre os estudos por ela financiados, eles permitiam à companhia exercer influência sobre os estudos e publicações resultantes.

Sob evidências passadas de “influência leve”, os escândalos contribuem gradativamente para o descrédito das pesquisas que a Coca-Cola patrocina. Nesse sentido, especialistas aponta que se torna cada vez mais corriqueira a desconfiança das pesquisas patrocinadas por um parceiro do setor.

Este panorama reflete a parcialidade dos investimentos feitos em pesquisas por esta transnacional, em que os dados científicos e respectivos resultados somente são publicados em caso de favorecimento aos objetivos da empresa, minando as afirmações públicas de independência dos pesquisadores.

Tornam-se cada vez mais claras as dúvidas concernentes ao quanto da pesquisa que entra no domínio público reflete as posições e o conteúdo do patrocinador do setor, em oposição aos resultados de pesquisas totalmente imparciais e sem influência.

A máxima de Adam Smith, em “A Riqueza das Nações”, vai se mostrando indubitavelmente verdadeira: “uma economia de mercado caracteriza-se pelas decisões descentralizadas realizadas por trabalhadores e produtores independentes, cada um buscando satisfazer o seu interesse individual.”

*Mestre em Engenharia Civil e Meio Ambiente pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e consultor ambiental e de economia

 

 

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