Cenas do derretimento: Varejo

Não me lembro de outra transformação tão monumental como o processo disruptivo que vem acontecendo com o varejo analógico nesta década. Em todo o mundo, e no Brasil, também! Varejo em seu sentido mais amplo.

De lojas em geral, passando por restaurantes, agências de bancos, supermercados, revendas de automóveis, clinicas e hospitais, bancas de jornais, livrarias, e todas as demais possibilidades de lugar físico onde produtos e serviços são promovidos e vendidos. Em, no máximo uma década, uma mudança espetacular e radical na paisagem, o que demorava de 3 a 5 décadas para acontecer no passado.

Assim, e hoje, uma rápida retrospectiva de como era lento e demorado o processo terminal de organizações emblemáticas que pontuaram na vida dos que me veem e ouvem agora, e com 50 e mais anos.

Começando pelos supermercados, onde, e até o momento em que eu preparava este comentário, o primeiro nos meus registros era o SIRVA-SE, esquina da Santos com Consolação e onde hoje tem um Pão de Açúcar. E aí a revista Época Negócios diz que não, que o primeiro foi o Peg Pag, no ano de 1957.

Esqueceu-se a revista do SIRVA-SE, que depois foi comprado pelo Pão de Açúcar, assim como o Peg Pag, também. O fato é que o SIRVA-SE foi inaugurado antes, no ano de 1953.

Mas, e nos preparativos destes comentários, acabei encontrando um recorte de um anúncio da revista Seleções, do verdadeiramente primeiro supermercado, o Super Mercados Americanos, que ficava na rua 13 de maio, 1936, e inaugurado meses antes do SIRVA-SE.

Pois bem, todos foram ficando pelo caminho e neste momento a cadeia de varejo de alimentos, bebidas, higiene e beleza passa por sua mais radical reinvenção, muito especialmente a forma de se abastecer das famílias das grandes metrópoles. A última perna da cadeia não são mais os supermercados, e sim, os minimercados, por exemplo.

No território da moda masculina muitas e grandes lojas viraram estátuas na lembrança das pessoas. Lojas de moda masculina do passado que eram muito maiores que as lojas de hoje. E assim, uma após a outra foram sumindo na paisagem.

Exposição Garbo, e talvez a última a naufragar tenha sido a Ducal. Aquela que um dia e num determinado final de ano inventou o Natal Brasileiro, sem Papai Noel e renas, mas como artesanato do norte nordeste, bodes e cabras, e muitos santinhos de barro… Invenções do saudoso Lívio Rangan e sua Gang. Assim, nenhuma dessas organizações conseguiu acompanhar, na mesma velocidade e proporção, como evoluíram os homens em seus hábitos e costumes.

Uma pequena pausa para enveredar pelo território da alimentação, e onde também se alimentavam as famílias ricas e chiques da cidade.

No campo da alimentação out of home, fora de casa, na cidade de São Paulo e no território da carne prevaleciam as churrascarias, que em seu melhor momento começam a partir de um mesmo e único endereço, e, depois, seguem, acompanhando o crescimento da cidade, endereço esse na avenida Rio Branco, onde reinava a pioneira e legendária, a Cabana, migrando para o largo do Arouche com os primeiros Dinhos e Rubaiyat, e depois descendo para os jardins com o Rodeio, Dinhos, Esplanada Grill, e finalmente o Rubaiyat se reinventado e ocupando o derradeiro e mais importante ponto da Haddock Lobo com sua Figueira, casarão que abrigou por duas décadas a Cleusa Presentes.

A partir dos anos 1980, as novas churrascarias, emblematicamente representadas pela Fogo de Chão foram tomando conta do espaço. Hoje, na hora do almoço, em quase 1000 restaurantes por quilo da cidade de São Paulo, na parte dos fundos existe um grill preparando carnes de forma continua. E a frequência às churrascarias de grife restritas a comemorações especiais. A mudança é tão radical que a Fogo de Chão passou a oferecer a opção almoço executivo, enquanto, Alex Atala, o megaestrelado do Michelin, decidiu jogar a toalha e fechar as portas de seu Açougue Central. No Rio pontificou a Porcão, que chegou a ter 6 grandes casas, e, depois de 41 anos de funcionamento, encerrou suas atividades e fechou a última loja em 2016.

Mudando de ramo e rumo, a Sears também marcou época no varejo brasileiro. Com lojas em São Paulo e no Rio. Chegou por aqui logo depois da 2ª guerra, em 1949, e desistiu do Brasil no início dos anos 1990, fechando todas as suas 11 lojas. Na cidade de São Paulo, duas de suas lojas deram lugar a dois shopping centers. O West Plaza, e o Shopping Paulista.

No ano de 1944, a família Goldfarb decidiu criar a concorrente da Lojas Americanas. E assim nasceu a Lojas Brasileiras, mais conhecida como Lobras.

Sobreviveu 55 anos, e encerrou suas atividades em 1999, sendo parte de suas propriedades incorporadas pela família a outra rede dos Goldfarb, a Marisa. No tempo áureo da LOBRAS chegou a ter 63 lojas.

Nascida no interior do Estado de São Paulo, Lins, a Arapuã, até hoje permanece hibernada diante de uma recuperação judicial que já dura 20 anos. Sempre contou com a simpatia e apoio do Bradesco, mas, e mesmo assim, a família Simeira não conseguiu acompanhar a evolução do varejo e ficou pelo caminho.

Mesbla e Mappin, talvez as mais importantes lojas de departamento do Rio e de São Paulo, morreram abraçadas. Sempre foram concorrentes, mergulharam em irreversível decadência, quebraram, e foram assumidas as duas, por um mesmo investidor, Ricardo Mansur. Que acabou afundando junto com as duas, sem não antes anunciar planos absolutamente descabidos e que só impressionou inocentes e neófitos.

Um de seus últimos anúncios, por exemplo, era que pretendia converter o Mappin numa mega franquia, com mais de 1000 lojas em todo o Brasil. Claro que esta relação é incompleta e faltam outras duas dúzias de redes dos diferentes tipos de varejo que tombaram em combate de forma mais ou menos gloriosa. Mas, e para terminar, fecho com uma pequena rede, e que tinha um empresário inspirador, a G. Aronson, comandada por Girz Aronson, nascido na Lituânia em 18 de janeiro de 1917. Trabalhava todos os dias em uma de suas lojas, no centro da cidade de São Paulo.

Era o primeiro a chegar e último a sair e conversava com todos os clientes. Começou vendendo roupas e terminou com eletrodomésticos. Seu posicionamento, O Inimigo Número 1 dos Preços. Foi sequestrado, pagou o resgate, ficou 14 dias num cativeiro, comoveu a opinião pública, e, depois de duas concordatas finalmente faliu nos anos 1990. Morreu em 19 de junho de 2008, e com ele, todo esse ciclo do varejo brasileiro que de uma forma superficial, concisa, incompleta e rápida, percorri nestes comentários de hoje.

Termino com o título em português de um maravilhoso filme dirigido por Robert Redford e protagonizado por Brad Pit, “Nada é para sempre”, e com 3 frases. A primeira de Charlie Chaplin, “O tempo é o melhor autor. Sempre encontra um final perfeito”.

A segunda de Jim Morrison, “O futuro é incerto e o fim está sempre perto”. E a terceira e definitiva de Nicolau Maquiavel, “O que tem começo, tem fim”.

Apenas isso.

 

 

Quer receber nossa Newsletter? Preencha o formulário abaixo: