Brasileiro não gosta de porco

Eu não gostava…

Agora, e além dos palmeirenses, todos os demais torcedores dos demais times manifestam indisfarçável simpatia pelo suíno. Alguns, paixão, mesmo.

Durante anos ouviu-se essa suposta verdade. Que brasileiro não gostava de porco. Assim como uma série de outras e do mesmo gênero. O porco só era bem-vindo e tolerado na feijoada. Quem sabe, arriscava-se um sanduíche de pernil. De preferência no Bar Estadão… Mas, porco, era carne da segunda divisão. Do baixo clero.

E aí vieram as empresas de casual dining e a costelinha foi ocupando o espaço. Costelinha assada com molho barbecue. Agridoce. E aí veio Jefferson Rueda e decidiu ocupar a cena. Assumiu o porco. Criou sua casa. A Casa do Porco.

Que, e segundo as publicações especializadas, hoje é o restaurante mais concorrido do Brasil.

Meses atrás, Rueda conversou com Marjorie Zoppei e foi fotografado por Luiz Maximiano da revista Vip, Edição de fevereiro de 2018.

Joga duro. Pega pesado. Bate forte. Diz Rueda: “Não faço parte de panelinha. Sou amigo só de quem trabalhou comigo, na minha equipe… Fui estagiário do Alex Atala. Mas não tenho contato. Zero”.

Ou, “Nos anos 1990, num comercial de maionese, vi o chef Laurent pela primeira vez. Disse para minha mãe que ia trabalhar com aquele cara… Num curso de gastronomia Laurent ministrava algumas aulas. A partir dali, mentor e discípulo… Quando trabalhei com ele levava esporro o dia inteiro. Trabalhava 15 horas por dia… Não tinha essas questões trabalhistas… Tudo hoje é assédio…”.

Sobre posicionamento: “você tem que ser bom em alguma coisa e isso eu aprendi no Japão. Meu restaurante é um lugar especializado em porco. O importante é não tachar o tipo de público; Meu tíquete começa em R$ 16. A porta do restaurante está aberta para todos”.

Certíssimo! E é assim. Tem que se ter foco. E o foco não é no produto, é nas pessoas.

Por diferentes razões e motivos Rueda decidiu testar uma hipótese. E a hipótese era de que o porco poderia ser resgatado e voltar a frequentar todas as mesas de rotina e não excepcionalmente. E assim começou.

E gradativamente foi atraindo pessoas que gostavam de carne de porco, despertando a curiosidade dos que não tinham ainda provado ou por falta de oportunidade ou por ignorância, e os que deixaram se levar pelo preconceito e não passavam perto. E até esses começaram a se chagar…

Testada e comprovada a hipótese ou tese de Rueda, seu foco evoluiu para pessoas que gostam do porco e começou a desenvolver derivativos e complementos. E apoderou-se do território.

Assim, e segundo ele disse a Marjorie, no mês de fevereiro deste ano, “Estou no porco e vou permanecer por muito tempo. Neste ano começo a viajar o país para escrever um livro. Quero demarcar o que é o porco no Brasil. Quanto mais mexo, mais coisa vejo que dá para fazer…”.

Rueda assumiu o porco. Redescobriu o porco. É o homem do porco. É o dono do porco. E não se discute.

Todos os demais chefes dominam outras carnes e proteínas. O porco é exclusivo do Rueda. O homem do porco por ele mesmo:

“Eu era a ovelha negra da família. O café da tarde na casa da minha avó era para comentar sobre as coisas que eu fazia”… Coloquei bomba na escola, quebrei telhado do vizinho quando fui roubar fruta… “Hoje eu sou um doce de pessoa, melhorei muito. Até fiz um perfil no Facebook e sou o orgulho de minha cidade, São José do Rio Pardo…”.

Porco, o Oceano Azul do Chef Jefferson Rueda.

Corta para meses atrás. Revista Serafina, publicação mensal da Folha. Ela, Janaina Rueda, mais conhecida como Dona Onça.

A rainha da porcolandia. Do rei Jefferson. E toda a sua corte.

Numa foto magistral de meu querido amigo Miro, com quem trabalhei na Proeme, nos anos 1970.

O texto é de Chico Felitti.

A Onça casou com o Porco. Deu certo. Diz Chic o:“Ao lado de Jefferson Rueda, eleito o melhor chef da cidade na última edição da O Melhor De São Paulo da Folha, a chef e empresária e sócia do Dona Onça, da Casa do Porco, em, que Jefferson faz alta gastronomia com carne suína, e do Hot Pork, que serve cachorros quentes feitos com ingredientes nobres e sem artificialidade…”.

Jefferson sussurra: “a gente atende 50 mil pessoas por mês…”.

Recorda Janaina, “vendi Beirute de porta em porta, fui hostess de matinês em boates, sommelier de uma empresa francesa… Um dia fui ao restaurante Pomodori no Itaim. Depois de duas garfadas apaixonei-me pelo chef. Jefferson Rueda… fui pra cima… ele não me dava bola…  casaram, dois filhos, quatro negócios…

Mal sabia o porco que ali começava o mais sensacional resgate de uma iguaria de todos os tempos. Deu pra entender.

Consistência de Phocus, Positioning irretocável, Product de qualidade superior e única, Promotion boca a boca em estado de arte. E todos os demais 8 “Ps” com a mesma acuidade e perfeição.

Nas horas vagas seu Porco e Dona Onça barbarizam e causam.

Segundo Serafina, os dois, e além do porco, estão dando uma contribuição inestimável no resgate do velho centro, no legendário Copan… E ainda Dona Onça, Janaina, mudou para melhor, para muito melhor, para mais que ótimo, a refeição de 1,5 milhão de crianças. E nós que menosprezávamos o porco…

Isso posto, e daqui para frente, e seguindo o ditado, “Jamais xingue um ser humano de porco. Os porcos não merecem tamanha humilhação…”.