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Boeing, Max, 737: O comercialmente perfeito é um desastre

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Não sou especialista em aviação. Como vocês, vez por outra, faço um voo aqui, outro ali. Sou Consultor de Empresas e minha competência é negócios. Assim, declaro-me absolutamente incapaz de apontar falhas técnicas ou de engenharia ou métodos construtivos numa aeronave. Mas, e depois de quase 40 anos de consultoria e mais de 1.200 trabalhos realizados sou capaz de analisar qualquer negócio e prognosticar, com uma margem de acerto superior a 95%, se tem ou não chances de dar certo. Claro, enquanto negócio.

Mesmo antes de trabalhar como consultor, quando comandava o marketing do Itaú, anos 1970, e depois de mergulhar nos dados, conclui que o Concorde era inviável. Publiquei um artigo denunciando a inviabilidade econômica do projeto. Fui solenemente linchado. Infelizmente, estava certo. Mais recentemente, quando se começou a comentar sobre o Airbus A380, fiz uma rápida análise e escrevi um artigo. Título, “Sem Chances”. Para esse avião viabilizar-se toda a infraestrutura de terra teria que ser revista e reconstruída. Infelizmente, estava certo.

Quando a Boeing anunciou seu 737 Max fiquei entusiasmado. Fui estudar o avião. Terceira ou quarta geração de uma família de sucesso. Mas, uma adaptação. Não cheguei a dizer que não daria certo, mas manifestei meu ceticismo pela decisão da Boeing de não projetar um novo avião do zero e partir para um remendo radical. Se tudo o que a Boeing prometeu se confirmasse na prática, o 737 seria o avião dos sonhos de todas as empresas aéreas do mundo. Na última linha deixaria um resultado de 20%. Infinitamente maior que o maior dos sonhos e delírios das empresas aéreas. E, assim, saíram comprando. A maior fila de toda a história da aviação para receber um avião. Em poucos meses, bateu todos os recordes de compras em avião de sua categoria.

A certeza do sucesso de um modelo adaptado era tão grande que negligenciaram naquilo que é comum no marketing de produtos de consumo. No Shelf Life. A Boeing estava tão segura que queimou etapas e vadiou nos testes. Lembram, a pressa passa e a merda fica. E hoje, a situação é desesperadora.

De longe, a maior crise da indústria aeronáutica da história da aviação comercial. Milhares de 737 Max parados, centenas aguardando ordens para serem entregues, e dezenas de empresas aéreas que amarraram seu futuro ao avião da Boeing e agora não sabem mais o que fazer.

O avião talvez seja hoje um dos meios de transportes mais seguro dentre todas as demais alternativas. O índice de acidentes é de 1 em mais de 3 milhões. Infecção hospitalar, por exemplo, 1 em cada 300 que ingressam numa instituição de saúde. Os primeiros meses do 737 Max um desastre sem precedentes. Caíram, mais que cair, despencaram dois, com a morte de todos os passageiros e tripulantes, em menos de 6 meses de voo.

E aí veio a Boeing e disse tratar-se de uma falha no sistema. No MCA – sistema de controle de voo do avião – e que em sessenta dias tudo estaria resolvido e o mais fantástico avião da história da aviação, no tocante a rentabilidade, voltaria a ocupar os céus do mundo. Proibição no mês de março.

Dois meses a promessa de solução da Boeing. Passaram-se 5 meses. Silêncio. As empresas que compraram o fantástico 737 Max indo ao desespero. Os fornecedores de peças tremendo. E milhões de prováveis e futuros passageiros crescendo na desconfiança e medo… Donald Trump ensandecido querendo comer o rabo de todos os incompetentes da Boeing.

Há dois meses, uma série de relatórios, explicações, laudos e pareceres, e a certeza absoluta e conclusão definitiva de que não houve falha humana. Os dois aviões, simplesmente, perderam sustentabilidade, e, caíram. Um modelo que não se sustenta no ar, ou se preferirem, que não para em pé em todos os sentidos.

E para conseguir a espetacular performance em termos de desempenho econômico, a Boeing buscou ganhos extraordinários com os novos motores desenvolvidos para o 737 Max. Max, em tudo, muito especialmente, em economia. E ao fazer isso, claro, sem que fosse essa sua intenção, ultrapassou em muito as margens de segurança para novas aeronaves. Repito, não entendo de aviação. Apenas lendo o projeto e na falta de melhores explicações da Boeing é o que minha sensibilidade me diz.

Qual a gravidade desse desastre sem precedentes? E além das quase 500 vidas perdidas? Que 20% do tráfego aéreo do futuro, e que transportaria mais de 30% dos passageiros, apostava e já tinha cravado seus planos no 737 Max. Portanto, uma nova solução urgente precisará ser encontrada para a substituição, considerando-se que não existem soluções urgentes na construção de aeronaves. No mínimo, entre 3 a 5 anos.

Conclusão, poderemos ter uma paralisia na aviação comercial em todo o mundo, o preço das passagens deve dobrar, e não se descarta, caso o governo americano não venha intervir, uma inviabilidade econômica de sua grande empresa da indústria aeronáutica, a Boeing. Qualquer solução, e se existir, vai demandar, no mínimo, de 2 a 3 anos.

E se acontecer, quando acontecer, exigirá um esforço descomunal da Boeing para tentar resgatar aquela que era sua maior aposta em relação ao futuro. Num espaço de tempo muito curto 2 Boeing 737 Max, novíssimos, despencaram matando 346 pessoas na Etiópia e na Indonésia. E um terceiro não caiu pela felicidade de um piloto de folga a bordo e que já ouvira falar dos acidentes anteriores e tentou um novo procedimento que evitou a queda.

E aí voos cancelados, aviões proibidos de decolar, entregas suspensas, e a Boeing, não sabia se parava ou continuava. Mesmo porque, todos os seus fornecedores estavam contratados por todos os próximos anos e continuavam produzindo os componentes. A Boeing garantiu que o problema era de sistema e que tudo estaria resolvido em dois meses. Estamos ingressando no segundo ano, nada resolvido, e a Boeing decidiu desacelerar a produção e começou a notificar seus fornecedores, e redimensionar sua encomendas e reescalonar as entregas.

E mesmo que conseguisse corrigir os erros do projeto, precisará de muitos meses, seguramente anos, para uma campanha de resgate da credibilidade da aeronave. O plano inicial previa uma produção mensal de 52 unidades, com a possibilidade de chegar a 68, caso a demanda permanecesse crescente.

Diante dos acidentes, e com muitos pedidos e reservas cancelados, a Boeing decidiu reduzir a produção de 52 para 42. Os fornecedores, todos, revelam-se atônitos. Alguns insistem em manter o ritmo de produção como se a Boeing fosse produzir os 52 Max por mês. Outros estão se enquadrando a nova estimativa. Todos nervosos e contabilizando prejuízos, e, pior ainda, sem saber o que vai acontecer daqui para frente. E enquanto isso, as ações dessas empresas fornecedoras não param de derreter. Segundo analistas, a parada radical na fabricação está custando para a Boeing US$ 1 bi por mês. Mas 1 bilhão por mês é nada diante da corrosão profunda na imagem da marca.

Assumo, uma vez mais, minha total e absoluta ignorância no assunto. Mas, respaldo-me na, minha sensibilidade e experiência de consultor. O problema do Boeing 737 Max não é de sistema, e sim, repito, de projeto. Os motores mais potentes, e que possibilitam uma economia espetacular na operação do avião, provocam uma fadiga precoce nos materiais e estrutura do avião. Ou seja, e guardada as devidas proporções e comentários, a Boeing, além de errar no projeto, foi irresponsável no Shelf Life! Não voou o suficiente para comprovar de verdade a qualidade e a segurança de seu novo produto…

Há menos de três meses a Administração Federal de Aviação dos Estados Unidos anunciou a descoberta de novos riscos potenciais no 737 Max. Estendendo a proibição de voos. Duas das maiores empresas dos Estados Unidos mergulham no desespero. A mais emblemática de todas, a Southwest Airlines, que tem toda a sua frota constituída exclusivamente de Boeings, e a United que anunciara a retomada de voos com o 737 Max para julho e depois a nova data passou a ser 3 de setembro… E estamos em janeiro 2020… E, nada! Isso vem significando o cancelamento de mais de 2000 voos a cada mês.

Acho que o 737 Max ingressará para a história como a mais precoce das mortes de toda a indústria.

Morreu saindo do berçário, com poucos meses de vida. Nem mesmo chegou ao quarto…

Talvez descubra-se tardiamente que o 737 Max era uma galinha. Com todo o respeito às galinhas…

 

 

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