Bob Garfield, 3 de maio de 2009

Os quatro grandes grupos que dominaram a propaganda em todo o mundo nas últimas três décadas derretem e de forma acelerada.

WPP, Omnicom, Publicis e Interpublic.

Em tempos de prosperidade, equívocos são tapados com lucros e gestões precárias jogadas para baixo do tapete. Já na vazante tudo se revela e escancara.

No dia 3 de maio de 2009, preparando-se para demitir-se como editor da Advertising Age, e prefaciando seu livro revelador, “The Caos Scenario”, lançado no Brasil em 2012, pelo Meio & Mensagem, Bob Garfield escrevia: “Hoje, três de maio de 2009, enquanto faço a última entrevista para este livro, o New York Times anuncia que vai fechar seu segundo maior órgão noticioso, o Boston Globe. Depois de 137 anos..”..

De quem é a culpa? Dos mesmos bárbaros responsáveis pela falência ainda neste ano do Chicago Tribune, do Minneapolis Star Tribune, do Philadelphia Inquirer; pelo fechamento do Rocky Mountain News e das revistas Portfolio, Playgirl, Domino, pela ruina da indústria musical; pela destruição das rádios e emissoras de TV abertas; por sufocar quase até a morte o negócio da publicidade.

A revolução digital não é apenas uma chamada de capa. É uma revolução de verdade…

E talvez, você esteja muito ocupado mexendo com seu smartphone para perceber e realizar, mas as estruturas dos meios de comunicação de massa e do marketing de massa que de certa forma definiram seus vínculos com o mundo por mais de um século estão pegando fogo…

Assim, amigos, e como mais que previsto por todos os que acompanham o negocio da propaganda, o ciclo se encerra. E mesmo depois de toda essa anunciação e alerta, os comandantes cegos do advertising prosseguiram fazendo aquisições de sucatas em diferentes lugares do mundo inclusive no Brasil.

Para quê?

Quando a Publicis deu um rapa no mercado brasileiro, escrevi um artigo intitulado: A Rainha da Sucata… Who cares?

E agora vivemos o inevitável fim, reinvenção, desmembramento… ou morte dos quatro grandes grupos que dominaram a propaganda mundial.

Uma propaganda que mudou de rua. Que se robusteceu e prescreve outros conhecimentos e ferramentas. E se redescobre como Branding.

Não trafega mais pelas ruas onde ainda habitam decadentes, mas em luxuosas e grotescas mansões, esses quatro grupos.

Publicis, vem perdendo milhões e milhões de dólares em aquisições tardias que fez em muitos países. Muito especialmente no Brasil.

Omnicom, caminha na mesma direção e sem saber como resolver a mais desastrada dentre todas as suas aquisições e que também ocorreu no Brasil.

Interpublic, tapando o buraco de sucessivos escândalos em seu comando, e pagando caríssimo pelo envolvimento de suas empresas no Brasil em processo de corrupção comprovada e que resultou numa das maiores multas de acordos de leniência realizados desde a Operação Lava Jato.

E WPP, depois do escândalo de um evento de benemerência regado a putaria da grossa e onde seu todo poderoso tinha uma mesa especial e reservada – embora no último, deste ano, não tenha comparecido – agora aparece na principal página de economia de todos os principais jornais do mundo pelas denúncias que despencam sobre esse mesmo todo poderoso, Martin Sorrel. Que, e por sinal, dias depois, foi defenestrado do comando…

Constrangedoramente, apeado do comando. O empresário que produziu o milagre de fazer de uma empresa de fios, plásticos e produtos – WPP – aproveitando-se de vazios tributários, um dos maiores grupos de comunicação de todos os tempos.

Agora, nove anos depois, o que Bob Garfield anunciou realizou-se na totalidade e por completo. FIM. O ciclo acabou.

O terreno feérico onde brilharam talentos e profissionais consagrados, hoje se converte, dia após dia, mediante processo irreversível de desertificação, num matagal assustador. Como profetizou um dia Gertrude Stein, “não existe lá mais ali”.

E o que virá depois? Zygmunt Bauman, que nos deixou recentemente, nos recomenda atentar aos escritos de Antonio Gramsci, que na prisão, no começo dos 1930, anotou: “A crise consiste precisamente no fato de que o velho está morrendo e o novo não pode nascer; neste interregno, apareceu uma grande variedade de sintomas mórbidos”.

Eu acredito que já avançamos um pouco mais. E que estamos às vésperas de novas manifestações que cuidarão da comunicação e da imagem de empresas, produtos, serviços, pessoas e instituições.

Talvez não mais nem um grupo e nem um único prestador de serviços isoladamente. Mas um grupo de pequenas empresas e profissionais qualificados que dia após dia vêm assimilando todo o aprendizado e técnicas para poder trabalhar de forma compartilhada.

“Sharing”, a principal característica de um admirável mundo novo às vésperas da eclosão.

O sharing world.

FRANCISCO MADIA, especial para o MMM

 

 

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