Agora, serenatas de baciada

Não sei se vocês gostam de serenatas? Eu não gosto. Eu gosto e muito de música. Não consigo imaginar minha vida sem música praticamente o tempo todo. Jamais fico sozinho. Sempre, e no máximo, eu e alguma música de fundo e me acompanhando.

Numa determinada época de minha vida, frequentei lugares onde cruzava com alguns dos melhores cantores de músicas de serenata do Brasil.

Como, e, por exemplo, Silvio Caldas. Que morou durante muito tempo num apartamento do Hotel Jaraguá, colado à velha sede do Estadão.

Mas, confesso, e mesmo adorando muitas das músicas que fazem parte do repertório das serenatas, hoje acho tudo muito entediante. De qualquer maneira, caminhei e continuarei caminhando pela vida com trilha sonora, sempre.

No meu primeiro e único casamento com a Katinha decidimos que não queríamos nada de formal. Assim, escolhemos para as músicas canções tradicionais da música brasileira como Eu Sei Que Vou Te Amar, Minha Namorada, Se Todos Fossem Iguais a Você, dentre outras. E contratamos para cantá-las, o saudoso Pedro Miguel, que cantava nas noites do Jogral, da Rua Avanhandava, onde eu terminava todas as minhas noites, enquanto solteiro.

E depois que fechou o João Sebastião Bar, que ficava na descida da Major Sertório, onde numa noite conheci uma gaúcha que acabara de chegar em São Paulo começando sua carreira artística, e com quem fiquei conversando sentado no bar, durante uma duas horas, bebendo Pernault, e com a complacência do barman que sabia ser eu menor de idade. Essa gaúcha, também menor de idade. Chegada naquele dia, chamava-se Elis. O mesmo nome de uma namorada minha da época, Elis Regina.

Mas, e voltando ao casamento, Pedro Miguel saiu do Jogral na madrugada daquele dia, foi para casa tomar um banho, e às 11 horas da manhã de uma sexta-feira, na Igreja Dos Pobres do bairro do Butantã, estava lá tocando a trilha sonora do meu casamento com a Katinha.

Nas paredes daquela igreja uma via sacra pintada pelo genial Agostinho Batista de Freitas, segundo o saudoso Pietro Maria Bardi, um dos melhores primitivistas brasileiro de todos os tempos.

Voltando ás serenatas, e no Estadão de semanas atrás a notícia que agora está se tornando normal oferecer serenatas pelo Whatsapp.

O mais tradicional dos grupos que oferece esse serviço ao vivo, também disponibiliza em seu cardápio a alternativa via Whatsapp. Os Trovadores Urbanos.

Segundo a líder do grupo, Maida Novaes: “É ótimo. A gente consegue entrar na era digital mostrando a nossa marca, que é oferecer experiências…”.

O preço de uma Whatsapp Serenata varia entre R$ 100 e R$ 150. Pessoalmente, e dependendo da formação dos Trovadores e quantidade de músicas, o preço varia entre R$ 300 e R$ 1.000.  R$ 1.000 é para uma serenata de 1 hora e mais de 10 músicas. Acho demais… Não o preço, a quantidade de Músicas…

Mas, e com total respeito às pessoas que gostam de serenata, meu sentimento é que essas novidades, assim como uma série de outros costumes que passamos a adotar tirando proveito ou acomodando-nos diante das facilidades da tecnologia, são sinais maiúsculos e exuberantes de nossa decadência. E apelo a todos vocês que adoram e dependem da música em todos os sentidos, para que não alimentem essas novidades mais que tóxicas.

A tecnologia é fantástica e precisamos aproveitar ao máximo tudo o que nos proporciona. Sem perdermos o juízo, a razão, e principalmente os bons modos, a sensibilidade e a educação. Como já comentei com vocês, no prédio do MADIAMUNDOMARKETING, na Av. Angélica, centenas de pessoas todos os dias entram e saem. Quase todas com o celular a postos. Com exceção das que têm que parar para fazer a identificação, todas as demais passam reto pelas recepcionistas. Sem um único, olhar, sorriso, movimento de cabeça.

Bom dia e boa noite, então, nem pensar. E quase todas de olho na telinha minúscula. Vai ver estão recebendo e ouvindo uma serenata gelada, xoxa, insípida, inodora, patética, via whatsapp…

Tenho certeza que após a matéria do Estadão de semanas atrás os Trovadores estão batendo recordes de vendas. Assim que, e com o sucesso e prevalecimento dessas manifestações menores, pobres, e irrelevantes, o ser humano terá piorado ainda mais. Mas, sempre é tempo, hora e lugar de se ouvir e deixar acompanhar e levar por uma música de qualidade. Sempre, e para todo sempre, Amém!

 

 

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