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A lição memorável de Paulo Zottolo

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Ir no embalo costuma não dar certo. Mesmo na maior emoção e sempre, respirar fundo e perguntar-se: o que estou na iminência de fazer verdadeiramente procede, é relevante, faz sentido. No embalo, empresários, artistas e celebridades há 12 anos mergulharam numa roubada.

Criado pelo atual governador do estado de São Paulo, João Doria Jr, e tendo como principais articuladores o presidente da Philips do Brasil, Paulo Zottolo, o advogado Luiz Flávio Borges D´Urso, a adesão de artistas como Ivete Sangalo, Hebe Camargo, Ana Maria Braga, Regina Duarte, e importantes lideranças empresariais do país, um movimento que nasceu totalmente fora de hora, e com uma denominação que o tornava morto mesmo antes de ter nascido. Cansei!

Denominação equivocadamente sugerida por um dos mais renomados publicitários brasileiros. E nasceu no vácuo do trágico e brutal acidente com o avião da TAM. Em sua extensão dizia-se ser o Movimento Cívico pelo Direito dos Brasileiros, com o naming Cansei.

O principal ato do movimento aconteceu no dia 17 de agosto de 2007,  portanto, com mais de 12 anos completos , reunindo aproximadamente 5 mil pessoas na Praça da Sé, para protestar contra O “Caos Aéreo”, “A Corrupção”, “A Falta de Segurança”.

O movimento imediatamente tornou-se alvo de brincadeiras na internet e se desmoralizou. Muitos do que participaram confessam, no privado, e admitem que, e ainda com ótimas intenções, caíram numa roubadíssima. Mas, um profissional e empresário tornou-se na maior vítima dessa iniciativa precária, temerária, e acima de tudo, pessimamente planejada e pior organizada.

Trata-se daquele que presidia uma das mais importantes empresas do mundo em nosso país, a Philips, e que no final de semana de julho de 2019, quase 12 anos depois, publicou um artigo no jornal Valor, com seu depoimento e aprendizado. E, de certa forma, e ao assumir o erro, consegue resgatar a totalidade de sua imagem e marca que ficou perdida pelo caminho.

Como se trata de uma das mais importantes lições desta década sobre princípios essenciais de Branding para todos nós, empresários, profissionais, pessoas, transcrevemos para vocês agora a manifestação, 12 anos depois, de Paulo Zotollo, ex-presidente da Philips, hoje consultor de empresas e palestrante radicado nos Estados Unidos.

Escreve Paulo: “O Piauí é um dos Estados que mais visitei na região Nordeste do país. Só no Parque Nacional da Serra da Capivara, estive cinco vezes. Tenho fascinação pelo sítio arqueológico ali existente e reconheço sua importância para a história do desenvolvimento da civilização humana e pelos seus registros arqueológicos que representam as imagens rupestres mais antigas do Brasil.

Em 2007, eu era CEO da Philips no Brasil. Nas férias, fui conhecer o parque de Yellowstone, nos Estados Unidos, lugar que no meu imaginário abrigava os heróis da minha infância, Zé Colmeia e Catatau. Embora o parque fosse exuberante, fiquei decepcionado porque, em vez do esperado contato com a natureza e a observação de ursos em seu habitat natural, encontrei enormes congestionamentos, que tiravam totalmente a possibilidade de ver algum animal e se sentir no meio da natureza. Além de ser um lugar caro e longe para os brasileiros.

Lembro que à época comparei desfavoravelmente Yellowstone com a Serra da Capivara  tão mais perto, mais bonita e relevante. Comentei inclusive que poucos brasileiros conhecem o parque do Piauí e que era fundamental que o turismo fosse mais promovido para que mais turistas se interessassem por conhecer o Estado, a Serra da Capivara e as peculiaridades da natureza na região. Pouco depois, no auge do movimento Cansei, do qual fui um dos criadores e que procurava mostrar o desgaste da política em grupos da sociedade civil, um comentário infeliz meu ao Valor Econômico se transformou em uma pedra no meu caminho. Eu disse: ‘Não se pode pensar que o país é um Piauí, no sentido de que tanto faz quanto tanto fez. Se o Piauí deixar de existir, ninguém vai ficar chateado’.

Foi necessário deixar o tempo passar para se fazer uma avaliação crítica e isenta do episódio. Reconheci logo em seguida a insensatez do comentário, pois, levado pelo calor de entrevista, não considerei que poderia estar ferindo os piauienses. A minha frase com relação ao Estado do Piauí foi uma demonstração de insensibilidade, mas a lição foi aprendida – a palavra tem força e deve ser usada responsavelmente.

Passei uma imagem que não condizia com o que penso e paguei caro por esse ato imprudente. Fui considerado “persona non grata” no Estado, tive que assistir a produtos da Philips sendo destruídos em praça pública em Teresina, minha família foi ameaçada e tive que dar explicações duras à matriz, na Holanda, que no fim das contas me deu seu apoio, e isso, tenho certeza, deve-se aos resultados positivos que a empresa no Brasil vinha entregando. O pior de tudo foi ter sido considerado publicamente uma pessoa preconceituosa, e isso eu sei que não sou.

Mas a ‘trombada’ do caso Piauí me fez bem. Soube aproveitar a oportunidade, mesmo dolorosa, e repensar certas atitudes. Não posso garantir que essa terá sido minha única trombada. O erro é inerente a quem quer acertar e não tem medo de se manifestar.

Certamente cometerei outros erros, mas hoje me esforço para reconhecê-los e analisá-los assim que acontecem. É doloroso reconhecer o erro e entender porque se errou.

O Cansei foi um movimento certo na hora errada. Hoje, creio, seria visto de forma diferente, mas ele foi uma semente da mostra do cansaço popular e na vontade de mudar a política no país. Já o comentário sobre o Piauí foi o comentário errado na hora errada.

Trago essa minha experiência pessoal para fazer um paralelo com a presente situação política do país. Atualmente o extremismo e a polarização tomam conta do Brasil que muitos anos atrás era um país ‘mais leve’, com maior diálogo entre as pessoas.

Hoje é um país pesado, onde nenhum lado escuta o outro, e a crítica passa ao largo de análise, ou melhor, sem autoanálise. Esse quadro trará discórdias e rusgas entre as pessoas. Quantas pessoas conseguem realmente aprender com seus erros e rever suas posições?

Certamente muitos já tiveram seus ‘Piauís’, em maior ou em menor escala. Quantos realmente aproveitaram a oportunidade para aprender com eles, e isso é o que vai permitir que possamos ser leves de novo. Leves, tolerantes e respeitosos… Como na época eu não fui com o Piauí”.

Foi o que o Paulo Zotollo escreveu no jornal Valor.

Ou seja, amigos, quando decide-se de forma açodada embarcar-se em manifestações extemporâneas, desprovidas do devido planejamento, e ativadas de forma medíocre, os riscos de equívocos e desastres monumentais são elevadíssimos. Principalmente a cidade de São Paulo viveu e testemunhou, naquele agosto de 2007, e em meio aos escombros e mortos do avião da TAM, uma das manifestações mais patéticas de toda a sua história. Ainda que, com as melhores das intenções.

E que fez com que Paulo Zotollo, no calor e embalo do momento, falasse o que qualquer pessoa com um mínimo de sensibilidade e sensatez jamais faria. Muito bom o artigo, o reconhecimento, e o compartilhamento com todos nós da terrível experiência que Paulo viveu e passou. Generosa e humildemente compartilhou com todos nós seguramente o momento mais difícil de sua vida. E do qual, despede-se em sua carta, simplesmente engrandecido.

Apenas uma pequena observação. Talvez Paulo em seu mea-culpa tenha se esquecido de dizer que a empresa que presidia, a Philips, precisou publicar anúncios nos principais jornais do país, desculpando-se pelo erro cometido por seu presidente.

E termino com Kafka, Voltaire e Scott Fitzgerald.

Kafka: “Todos os erros humanos são fruto da impaciência. Interrupção prematura de um processo ordenado, obstáculo artificial levantado em redor de uma realidade artificial”.

Voltaire: “Os homens erram, os grandes homens confessam que erraram”.

Fitzgerald: “Um senso de dignidade fundamental é concedido às pessoas desigualmente ao nascer”.

Obrigado, Paulo Zotollo, pela emocionante e memorável lição.

 

 

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