Matando os clientes com paciência e crueldade

Um dos poucos negócios legais do mundo em que uma empresa envenena todos os dias cada um de seus clientes. E quanto mais leal e fiel, mais doses de veneno diárias, várias vezes ao dia, a empresa, criminosamente, vai fornecendo a seus clientes.

Semanas atrás o STF manteve norma que proíbe a venda de cigarros com sabor.  Ou seja, a indústria da morte do tabaco, onde prevalecem no Brasil Souza Cruz e Philip Morris, não só não se envergonha como não desiste. E os fracos e suicidas que entram na onda, de certa forma, fazem jus, merecem.

Mas, e mesmo merecendo, as duas empresas tiveram todo o tempo do mundo para repensarem seus negócios. Optaram por continuar no business do homicídio: lento, gradual, perverso, recorrente.

A venda de cigarros com sabor é só uma das faces das inúmeras tentativas que as cigarreiras fazem para retomar o caminho do crime na fonte, no nascedouro, criando estímulos para voltar a merecer a atenção e adesão dos jovens.

Assim, e em termos absolutos, e não obstante tudo o que hoje se sabe e que é público e do conhecimento de todos, o número absoluto de fumantes é maior do que era em 1990.

Hoje são um bilhão de fumantes no mundo, para 870 milhões de 1990. Em termos relativos, uma pequena queda. E no ranking da morte consentida… O Brasil ocupa a oitava posição em se considerando o número de fumantes. 7,1 milhões de mulheres e 11,1 milhões de homens.

Se o número absoluto é ainda devastador, todas as campanhas e iniciativas para reduzir a dependência do cigarro vêm dando resultado. Nesse mesmo período, e em nosso país, o número de fumantes caiu em termos absolutos, e, por decorrência, e de forma significativa, em termos relativos. De 29% para 12% entre os homens, e de 19% para 8% entre as mulheres. De 1990, até hoje, e segundo pesquisa publicada na revista científica The Lancet.

Enquanto tudo isso acontece, e gradativamente, os cigarros contrabandeados e produzidos no Paraguai hoje detêm 50% de todo o mercado brasileiro. E, claro, sem nenhuma das advertências dos cigarros produzidos pelas grandes indústrias.

Em matéria do final do ano passado, no jornal Campo Grande News, pertinho do Paraguai, a informação e constatação: “Proibido, o comércio de cigarros contrabandeados ocorre livremente em Campo Grande. Das banquinhas do ‘jogo do bicho’, outra contravenção, às residências mais humildes nos bairros da cidade, ou dos bares e mercados até os revendedores espalhados no Centro, é fácil e comum encontrar marcas de entrada ilegal no País na Capital…”.

O Campo Grande News foi às ruas e constatou que pelo menos 20 marcas diferentes são comercializadas a preços baixos, que variam de R$ 1,60 a R$ 5. Quem compra em grandes quantidades consegue, até, deter uma espécie de monopólio do produto em sua região. Anúncios explícitos como placas com preços estão expostos nas ruas do Centro, como por exemplo, na Rua Rui Barbosa, a poucos metros de uma viatura da polícia. “Na barraquinha, o campeão de vendas, Fox, está em promoção: três maços por R$ 5”.

E na internet… Segundo o jornal… A dimensão do esquema fica ainda mais evidente. “Cigarros do Paraguai a preço de custo, direto do fornecedor! Possuo grande estoque já no Brasil, entrego para o Brasil inteiro, via correios ou frete”.

Em outra página, o esquema de revenda é revelado como atrativo para novos “distribuidores” das marcas Eight e San. “Um Eight hoje no cliente final chega a média de R$ 5,00 reais, passamos a R$ 3,50 a unidade e você repassa ao bar a R$ 4,00 e o mesmo vende a R$ 5. Todos ganham na quantidade levando em consideração que o cigarro vende muito e se vende sozinho”.

Ainda conforme a proposta, uma caixa é o pedido mínimo, nela vem 50 pacotes com 500 maços de cigarros dentro. Comprando quantidades maiores, o esquema fica ainda mais rentável. “Em uma quantidade de 10 caixas sai R$ 2,99 a unidade. A margem de lucro do distribuidor pode chegar a R$ 0,90 centavos por unidade. Acima de 10 caixas o distribuidor ganha um desconto e parceria com exclusividade em sua região”.

A luta continua. Mesmo diminuindo, o vício resiste e sobrevive. E agora, e além dos gigantes formais do setor, o contrabando prevalece e a rede de distribuição envolve milhares de pessoas e famílias em todo o Brasil. Lamentavelmente.

FRANCISCO MADIA, especial para o MMM.

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