Ferran Adrià

Adrià sagrou-se campeão do mundo sucessivas vezes e decidiu pendurar as chuteiras. Jamais abandonar a profissão. Subir um degrau ou elevar-se ao essencial. Produzir documentação. Registrar, de forma organizada, todo o conhecimento de décadas da revolução que tomou conta da cozinha em todo o mundo, a partir da 2ª Grande Guerra, e que talvez tenha em Paul Bocuse os primeiros movimentos.

Em abril de 2015, e a pedido de seu patrocinador master, Ferran Adrià voltou à cozinha, depois de despedir-se em 2011. Dentre os convidados Gisele Vitoria de IstoÉ, que, em Barcelona, registrou e documentou a cerimônia.

Segundo Gisele, no El Bulli Lab, em Barcelona: “Não há sequer uma panela. Não se vê chaleiras, caldeirões ou frigideiras. Tampouco fogões, fornos ou talheres. Há, sim, papéis, canetas e textos por todo lado. Ali, a cozinha é uma consequência do pensamento e da inteligência…”.

E assim é. Agora é. Adrià chamou a si a responsabilidade do registro e da documentação.

Em seu segundo tempo de vida, Adrià assim se definiu para Gisele: “A criatividade pode ser uma forma de vida, aplicada a qualquer atividade: da compreensão de um tomate à de um iPhone. Como compreendemos um processo criativo, um processo de produção, um processo de experiência? Se conhecemos todos os processos, compreendemos um alimento, uma bebida ou uma tecnologia. É o que fazemos há 25 anos e poucos entendem…”.

Neste ano de 2018, Adrià veio ao Brasil. Depois de alguns anos à frente de seu Lab, provisoriamente desativado enquanto aguarda por uma nova sede na etapa final de decoração, e já com um primeiro balanço de todos os anos concentrado na pesquisa, organização e registro do conhecimento sobre a ciência e a arte do cozinhar-se com qualidade em todo o mundo.

Em sucessivos encontros com os grandes chefes da cozinha brasileiros, onde desfiando sua visão de para onde caminha a cozinha e a humanidade.

Diz Adrià: “o restaurante de todos os próximos anos tem na ludicidade uma de suas principais características. Claro, onde se come bem num ambiente informal, divertido, e a preços acessíveis…”.

Concedeu dezenas de entrevistas. Dentre essas, e talvez a mais completa, a para o crítico Josimar Melo da Folha.

– Quem cozinha? “Nos últimos anos do El Bulli meu trabalho não era cozinhar, era criar, comer e analisar continuamente, para abrir novos caminhos. Em toda a cozinha de restaurante deve existir a figura do chef, mas, o cozinheiro e proprietário tem que cuidar do aprendizado e controlando a qualidade, muito mais do que ficar se envolvendo com os ingredientes e panelas”.

– Como funciona sua El Bulli Foundation – “Lugar onde criamos conteúdo de máxima qualidade, reunindo experts de várias áreas. Em nossas novas instalações vamos convocar os melhores chefs do mundo para períodos de algumas semanas de pesquisa prática e ao lado de psicólogos, jornalistas, investigando novas metodologias e aprendendo como inovar de forma eficaz. Ao final pretendemos criar um novo modelo de gestão, de serviço, de networking, de cardápio, de decoração”.

Antes de terminar seu papo Adrià disse que nos próximos meses sua fundação lançará 12 livros de 600 páginas cada para facilitar a introdução de novos profissionais à cozinha e à culinária. E perguntado por Josimar como procede quando vai comer fora, aconselhou: “Quando saio para comer em um restaurante sempre tomo minhas precauções. Primeiro chego cedo: é quando se pega o time descansado e distante do momento de maior estresse. Se é um lugar importante e que não conheço procuro informações sobre o que fazem e têm de melhor. E terceiro, me concentro nisso: naquilo que fazem melhor”.

De alguma forma, e no mundo do conteúdo, o que Adrià vem fazendo em seu campo de atuação, começa a ser feito por outros profissionais de sucesso em quase todos os demais setores de atividade. Pesquisar, organizar e tornar disponível o conhecimento.

Compartilhar, as bênçãos de um conhecimento genuíno decorrente das práticas de uma pessoa escolhida pelo destino e pelas circunstâncias, e dotada de incomum competência e sensibilidade, com todas as demais pessoas do mundo. Para todo o sempre, amém.

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