A pátria de chuteiras morreu. A paixão pelo futebol continua viva e até cresce, mas a atitude do brasileiro ao lidar com esta paixão, suas vitórias e derrotas, mudou.
Reparei nesta nova atitude justamente ao observar a minha reação e de todos à minha volta em relação à eliminação de nossa seleção. E esta diferença em comparação com outras derrotas e até com muitas vitórias revela um crescimento sem precedentes em nossa auto-estima e um amadurecimento que me faz pensar que o nosso conhecido complexo de vira-latas morreu. A patria de chuteira só existia em um país humilhado. E o país não está mais humilhado, não se sente mais um país de segunda classe, onde os problemas não tem solução e nunca terão, porque afinal nascemos destinados ao fracasso. Nada disso.
Vi pessoas tristes com a derrota, vi pessoas lamentando a falta dos feriados criados nos dias de jogo, vejo ainda gente comentando nas mesas de retaurantes, vagões de metrô e nas esquinas sobre o jogo com a Holanda. O que definitivamente eu não vejo é uma depressão pós-copa que vi, por exemplo, em 82, 86 e 90.
Até este tempo, a gente, em geral, encarava a Copa como uma oportunidade de mostrar que, em alguma coisa, o Brasil era bom, em alguma coisa, a gente podia superar esses “gringos” que vivem a nos humilhar com seus povos superiors, competentes e bem nutridos. Com sua falta de inflação, sua economia estável, seu povo educado e com perspectivas que nós nem poderíamos sonhar em ter.
Aqueles gringos que sabiam fabricar carros como ninguém, computadores como ninguém, filmes, programas de TV, presidentes da república, faziam quase tudo melhor que a gente.
Menos o futebol. O futebol era o momento da gente humilhar de volta. Vocês fabricam Mercedes? A gente dá uma caneta em vocês. Vocês tem programas sociais que funcionam? A gente dá um chapéu em vocês. Vocês tem inflação de 4% ao ano? A gente inventou a folha seca e faz gol de bicicleta. Vocês são criativos na indústria e nos serviços, a gente se vinga nos gramados. Acredito vir daí um sentimento muito brasileiro, histórico e já muito citado, que é o de que não basta vencer, tem que vencer dando show.
Vencer somente não é vingança. Tem que humilhar em campo aquele ou aqueles que me humilham todo o tempo em todo o resto. Esta era a prova, no gramado, de que em alguma coisa a nossa criatividade, simpatia e alegria popular servia para competir de igual para igual e vencer. Mas era só.
O tempo passou, o Brasil caminhou, o brasileiro começou a se ver de outra forma. Temos hoje empresas brasileiras comprando amercianas, caso da Swift e de outras, lojas como Osklen abrindo em NY, marcas populares brasileiras se tornando internacionais e “fashion”, como Havaiannas.
As Havaiannas são, certamente, o caso mais emblemático junto com a Osklen. Nos dois casos, não é só o fato de serem empresas brasileiras se expandindo internacionalmente, mas marcas que tem a cara do Brasil, a cara do Rio de Janeiro, a cara do nosso estilo de viver, de encarar o mundo, de pensar. Marcas que comunicam a estética brasileira e carioca – que muitas vezes se confundem aos olhos internacionais – e até a nossa ligação com a natureza e as noções de sustentabilidade, caso da Natura.
Mas não snao só as nossas marcas que dão sinal de estamos melhores. Nosso dia-a-dia também. Temos hoje orgulho de ser um país misturado, de crenças e reças misturadas, de ter seu lado europeu misturado com o africano. O Brasil é pop lá for a e é pop aqui dentro também. A gente se sente capaz de realizar uma copa e não só de vencer uma copa. De realizar uma olimpíada e não só de vencer em algumas categorias olímpicas como o vôlei, por exemplo.
Eu trabalho em propaganda, um mercado onde sempre encaramos de igual para igual todos os países, mas até nisso nosso comportamento mudou. Encaramos com muito mais naturalidade sermos uma potência criativa em propaganda, sermos vitoriosos em Cannes, por exemplo, o supra-sumo dos festivais internacionais deste mercado.
A pátria está de havaianas. A pátria está mais internacional por ser cada dia mais brasileira.
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Bela sacada! O Brasil ainda vai deixar muitos países 'avançados' no chinelo! É só uma questão de tempo (pouco, espero) e Educação.
Comentário por Guto — 28 de julho de 2010 @ 20:43