Permita-me discordar do professor Vicente Falconi – o ícone brasileiro da Gestão. Na última edição da revista Exame (nº 968) sua coluna traz a chamada O choque de gerações é um mito. Falconi avança sobre o tema com duplo viés. Como sabemos, dois erros somados não se anulam – e por ser área de meu interesse, sou obrigado a intervir.
O primeiro viés vem de sua tentativa para explicar a questão das diferenças entres grupos etários: o correto é abordar os seres sociais e o que lhe são distintos, e não os seres humanos de maneira geral. Reconhecidamente sabemos que cada geração traz para a vida adulta características próprias. Os autores Strauss e Howe (desconhecidos aqui no Brasil), descrevem os movimentos culturais que em suas épocas, pegam carona na linha da história, notadamente como vetores a definir cada grupo geracional.
Assim por exemplo, nos Estados Unidos são definidos como baby boomers os nascidos no pós Guerra. Uma geração de americanos com características distintas – definida pela estrutura familiar e influências de um mundo em turbulência. Esse ‘jeito de ser’ veio se manifestar na sociedade, na política, nas artes e no mercado de trabalho de maneira muito própria. Abro parêntesis: certamente nós brasileiros, temos diferenças em períodos de nascimento e não devemos adotar impensadamente nomenclaturas e significados. Fecho parêntesis.
O outro viés é crer que sejam superficiais os fatores que definem e diferenciam cada grupo. Aqui Falconi despreza o peso do fator digital que hoje molda a vida de milhões de nossos adolescentes e jovens. Um em cada quatro funcionários de nossas empresas foi banhado em bits quando criancinha. E isso tem implicações profundas.
Esse fator é descrito como natividade digital. Permeia a vida dessa geração tornando-os muito diferentes de seus colegas (mesmo aqueles com pouca mais idade). Por serem mais rápidos, mais fluentes nos ferramentais tecnológicos, avessos à obediência irracional, adeptos da inovação e abertos à conectividade – eles são de fato um choque para a geração que os recebe.
O desafio que se nos apresenta é o de interpretar corretamente o momento atual – e em especial as implicações sociológicas – procurando dar forma a uma síntese tão necessária no encontro dessas forças. Para que assim não seja um embate de gerações e sim um ‘blend’ muito especial!
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