Cuidado com o merchan     

29 de novembro de 2011

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Ao ser retirado do porta-malas do carro, o traficante carioca protagonizou uma cena inusitada para a qual as grandes marcas não se preparam: a inclusão involuntária no cenário do crime, sem o menor poder de controle da situação.

O meliante, de tamanho avantajado, estava deitado no porta-malas do carro e, tirante o espanto diante da instantânea notoriedade, aparentemente, poderia permanecer ali por horas, quem sabe dias, tal o conforto que a marca japonesa de carros oferece aos seus ocupantes, malas de todos os tipos.

Dias desses, disposto a oferecer um merecido descanso aos neurônios me postei diante da televisão para ser bombardeado com o festival de histórias mal contadas e mal interpretadas em que se transformou a teledramaturgia brasileira, curiosamente, a queridinha dos anunciantes nacionais.

Gozando do merecido vácuo intelectual da programação recheada de ações de merchandising, cabal demonstração da liberdade artística e editorial da emissora (SIC), me deparei com um personagem, estudante de medicina, encantado por um modelo de carro.

O personagem conversava animadamente com um, mais animado, vendedor da loja, um tipo que não existe e que, caso a fabricante automotiva queira recuperar, basta com parte do investimento em mídia, oferecer adequado treinamento para sua brigada de vendas da vida real.

Na seqüência, o futuro médico aparece convencendo a mãe a lhe assinar um cheque em branco para a suposta compra de livros de medicina que, com interpretação sofrível, os protagonistas admitem serem muito caros.

Corta. Cena da concessionária e, novamente, o simpático vendedor aparece entregando as chaves do “carrão” para o personagem canalha que usou o cheque dos livros para adquirir o veículo automotivo, sem se abalar em enganar a mãe e cometer o deslize ético para conquistar, a todo custo, o almejado sonho de consumo.

Tudo absolutamente normal na ficção, não fosse o fato que a sequência de cenas envolvendo a loja do carro é uma ação de merchandising que deve ter custado verdadeira fábula à fabricante coreana que se sujeita a pagar caro para ter o seu nome vinculado ao cafajeste da trama televisiva.

Diferente do retratado no começo desse artigo, nesse caso a inserção da marca não foi obra do acaso, foi supostamente planejada e contou com a anuência dos responsáveis pelo marketing (?) do fabricante o que, no mínimo, sugere uma avaliação de valores e um alerta: cuidado com o merchan.

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Biografia

André Porto Alegre, jornalista e publicitário, membro do Conselho de Administração e da Diretoria Executiva da APP - Associação dos Profissionais de Propaganda, Conselheiro do CONAR - Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária, Conselheiro do FAC - Fórum do Audiovisual e Cinema. Foi Diretor Comercial da Mobz S.A., Circuito Digital S.A. e Promocine, empresas operadoras de mídia cinema. Vencedor do Prêmio MaxiMidia em 2004 e 2007 pelo Melhor Uso da Mídia Cinema. Trabalhou no jornal Folha de São Paulo, na Mauricio de Sousa Produções, no Grupo Young & Rubicam e na Ammiratti Puris Lintas. É professor dos cursos de MBA da Faculdade Rio Branco e FACCAMP.