Edgard Guarda – www.edgardguarda.com
O tema da persuasão tem uma longa tradição na cultura ocidental. Segundo a doxografia, o interesse e a reflexão para se compreender e desenvolver de um modo instrumental determinadas habilidades dirigidas a convencer, comover e agradar o público vem de longa data, provavelmente do século VI a.c., quando os lendários Córax e Tísias, começaram a fazer uso e ensinar técnicas retóricas aos sicilianos.
Sendo multidisciplinar e pluralista essas técnicas, inicialmente destinadas às questões jurídicas passaram, posteriormente, a fazer parte de todos os ramos da atividade humana: Direito, Política, Religião, Propaganda, Tratados, Obras literárias e demais setores que envolvam a necessidade da persuasão.
Historicamente, os movimentos religiosos sempre buscaram sua legitimação através do uso eficaz da palavra. A engenhosidade dos discursos do padre Antonio Vieira e do bispo francês Bossuet, no passado e as pregações dos pastores da Igreja Eletrônica, em nossa contemporaneidade, como: Billy Ghram, Jymy Sweeger, Edir Macedo, R.R. Soares, entre tantos outros, são peças instrutivas do uso inteligente da retórica para acusar e defender, propor realidades conhecidas ou pretendidas em defesa das organizações que representavam.
George Barna, pesquisador da mensagem cristã, parte do pressuposto que o marketing sempre esteve presente nos movimentos religiosos, considerando que o próprio Jesus Cristo, assim como seus seguidores, entre eles, Paulo de Tarso, sabiam como utilizar habilmente técnicas retóricas para conversão dos fiéis. Na passagem em segundo Corínthios: o apóstolo faz uso de uma das técnicas retóricas mais elementares (a técnica do pôr-se em comum)1 ao afirmar: “fiz-me de judeu para converter os judeus e de grego para converter os gregos”.
Chaim Perelman (l997:4) : o renovador da retórica em meados do século xx , sintetizou seu pensamento afirmando:
O objeto dessa teoria é o estudo das técnicas discursivas que permitem provocar ou aumentar a adesão aos espíritos as teses que são apresentadas ao seu assentimento.
Afirmação essa, em perfeita consonância com os pressupostos da retórica antiga.2
Na perspectiva desses autores, somos seres retóricos por excelência, por isso a pregação religiosa sempre esteve voltada para o mercado, sendo a característica central do proselitismo religioso, o stylus pugnax da retórica disfarçado, muitas vezes, no stilus conciliandi da dialética antiga.
O conceito de Igreja Eletrônica (Eletronic Church) também chamado de religião comercial (commercial religion) desenvolveu-se acentuadamente, nos Estados Unidos, na década de 50, espalhando-se por todos os continentes: América do Sul, Austrália, Nova Zelândia, Ásia, até mesmo por países europeus, nos quais, em virtude da legislação vigente, nos sistemas de radiodifusão não se permitem os excessos praticados pelos meios de comunicação norte-americanos.
Desse modo, a engenhosidade da pregação recebe o suporte tecnológico da mídia, porém sem deixar de lado o uso inteligente de slogans, metáforas e demais figuras de linguagem, legitimando, dessa forma, retoricamente, o interesse do empreendimento religioso das organizações no competitivo mercado de bens simbólicos.
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