O FENÔMENO DA CENSURA     

10 de outubro de 2011

3 Comentários

O Senador da República incomodado com as grosserias do comediante de televisão em relação à mulher e ao filho de um amigo e sócio, entra em contato com o proprietário da emissora e avisa que, se o tal artista não for afastado de suas funções ele, pessoalmente, irá contatar as empreiteiras e as empresas públicas e pedir para que não invistam mais seus recursos publicitários no canal de televisão. Isso é censura.

Portanto não há outro nome para o que ocorreu na última semana em relação a uma emissora de televisão, um comediante, várias grosserias e (surpresa!) um ex jogador de futebol.

Pois é, quando todos acreditavam que já havíamos assistido a tudo no país do futebol, somos brindados com a reação do ex profissional da bola, que ensaia seus primeiros passos no mundo corporativo e, por vocação, antes de habitar as páginas de negócios, volta para as páginas de fatos bizarros.

É direito de todo anunciante cancelar seus contratos comerciais com qualquer empresa de comunicação caso considere que o conteúdo apresentado não está de acordo com seus princípios. Portanto, não haveria a necessidade da intervenção do ex jogador, dublê de empresário, em alertar a comunidade anunciante para as barbaridades proferidas pelos apresentadores do dito programa. Bastava o anunciante assistir a uma única edição para perceber que a exposição de sua marca é uma agressão aos consumidores.

Também a emissora, concessionária do canal de televisão, não necessita do alerta do prudente ídolo da torcida brasileira para se convencer que há limites para a liberdade de expressão (sim, é isso mesmo que está escrito) e que determinadas posturas são contrárias ao papel social de um veículo de comunicação.

Anunciante e emissora deviam ter tomado a frente e alertado os infantes protagonistas do programa, de inspiração argentina, que, por seus critérios, seria conveniente impor limites à manifestação das idéias sob pena dos recursos de produção cessarem. E isso não é censura.

Mas tanto os anunciantes quanto a emissora foram omissos e não cumpriram suas obrigações sociais caso, verdadeiramente, se sentissem incomodados com os impropérios dos apresentadores.

Quanto ao espectador esse tem o poder supremo de desligar a televisão ou mudar de canal, um direito inafiançável exercido com a plenitude dos que tudo podem.

Recentemente o ex jogador, protagonista do vexame de 98 e herói do sucesso de 2002, se tornou sócio de um dos maiores conglomerados de comunicação do mundo, proprietário no Brasil de, pelo menos, meia dúzia de empresas, entre elas a maior agência de publicidade do país. Isso lhe confere uma condição comercial capaz de fazer valer seus princípios, assim como o Senador retratado no primeiro parágrafo.

Ao mudarmos de protagonista e substituirmos o jogador pelo fictício Senador a história assumiu seu verdadeiro caráter. O que presenciamos na semana passada foi um ato de censura comercial, motivada por interesses pessoais e não por valores sociais como tentaram nos convencer.

  • Share/Bookmark

This website uses IntenseDebate comments, but they are not currently loaded because either your browser doesn't support JavaScript, or they didn't load fast enough.

3 Comentários

  1. Apesar de seu ódio ao ex-jogador Ronaldo ter contaminado a narrativa concordo com boa parte do texto. A censura é abominável mas Rafinha Bastos exagera nas piadas de mau gosto.

    Comentário by Reinaldo — 17 de outubro de 2011 @ 16:10

  2. André, bastante polêmico o seu texto, justamente pela área cinzenta que permanece entre o que é e o que não é censura. No caso da boquirrotice de péssimo gosto do comediante, o que passou foi uma reação a posteriori, o que é completamente legítimo, seja quem for o seu deflagrador. Censura prévia é uma coisa, reação a um conteúdo efetivamente veiculado — e ofensivo — é outra. Do contrário, se poderia dizer, por exemplo, que o fracasso comercial de certos programas do começo do SBT foram resultado de censura: vc se lembra de que ninguém queria anunciar no "Povo na TV"? Deve haver limites para a pressão econômica, mas daí a dizer que o episódio rafinha foi fruto de censura, é uma tarefa e tanto, mesmo para sua reconhecida e inegável capacidade retórica. Abração!

    Comentário by Jayme Serva — 17 de outubro de 2011 @ 16:42

  3. Oi, prof. André! Que coincidência encontrá-lo nessas págs e ainda por cima falando de um assunto de tangencia a minha dissertação de mestrado! Concordo em "gênero, número e grau", pergunto-me quantas pessoas compraram o último CD da Wanessa para q ela tenha tal relevãncia artística…e ainda por cima temos que constatar, tristemente, que a mídia é pautada pelo VALOR DO MERCHANDISING! Daniela Atalla (casper – PP-1992)

    Comentário by Daniela — 17 de outubro de 2011 @ 18:22

Deixe um comentário

Nome (obrigatório)
Email (não será publicado) (obrigatório)
Site
Comentário:

Biografia

André Porto Alegre, jornalista e publicitário, membro do Conselho de Administração e da Diretoria Executiva da APP - Associação dos Profissionais de Propaganda, Conselheiro do CONAR - Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária, Conselheiro do FAC - Fórum do Audiovisual e Cinema. Foi Diretor Comercial da Mobz S.A., Circuito Digital S.A. e Promocine, empresas operadoras de mídia cinema. Vencedor do Prêmio MaxiMidia em 2004 e 2007 pelo Melhor Uso da Mídia Cinema. Trabalhou no jornal Folha de São Paulo, na Mauricio de Sousa Produções, no Grupo Young & Rubicam e na Ammiratti Puris Lintas. É professor dos cursos de MBA da Faculdade Rio Branco e FACCAMP.