Semana de comunicação em universidade é como aniversário de hipermercado, só acontece no segundo semestre. Por isso quando começa agosto há uma avalanche de convites para palestras e mesas de debate.
Particularmente me sinto honrado quando sou lembrado e evito declinar dos convites. Acredito que um dia serei esquecido, por isso aproveito o momento para expor e trocar idéias com os futuros profissionais de propaganda.
Tem sido uma experiência muito boa. Há no Brasil mais de 500 faculdades de Publicidade e Propaganda que colocam cerca de 8 mil novos profissionais no mercado de trabalho por ano e congregam um universo de aproximadamente 200 mil estudantes regularmente matriculados.
São números compatíveis com a relevância da propaganda brasileira e com o tamanho do país. Dos egressos, estima-se que 10% atuarão diretamente ligados à atividade publicitária em agências, veículos, anunciantes e serviços especializados.
O sucesso dos cursos superiores de propaganda é resultado da evidência da profissão, por isso considero que todo o profissional em atuação é parcialmente responsável pela escolha dos jovens que dedicam os melhores anos de suas vidas a aprender o ofício.
A falta de um marco regulatório para a atividade é um entrave no desenvolvimento do sentimento de categoria profissional. E esse aspecto acaba por dificultar a valorização das escolas superiores de propaganda que, invariavelmente, enfrentam o desprezo do mercado.
Desprezo mútuo, porque também as escolas, a exceção das semanas de comunicação, evitam maiores envolvimentos com um universo de profissionais que não conhecem a academia, ignoram os conteúdos programáticos e menosprezam os que se dedicam ao trabalho de ensinar propaganda.
Isso provoca tremendas distorções. Assuntos que deveriam fazer parte da pauta da academia e problemas que afligem o dia a dia das empresas de comunicação são esquecidos em um acordo conveniente que cultiva uma estranha idéia de que nada supera o resultado de um bom trabalho.
É uma espécie de cultura da viabilização capaz de superar todo o debate acerca do modelo de negócio da propaganda brasileira e suas conseqüências, em prol do retorno do investimento do anunciante. Um simplismo que forja a divisão entre os supostamente modernos, alheios à discussão corporativa e os supostamente arcaicos, alheios ao desenvolvimento do produto.
Enquanto evitarmos o contraditório na academia estaremos fadados ao ostracismo da qualificação profissional. O debate sobre o modelo da propaganda brasileira é imperativo para a formação do publicitário que encontrará um cenário completamente diferente do que existia quando foram estabelecidas as regras que orientam o negócio.
As platéias de jovens profissionais de propaganda adoram os cases de sucesso como se fossem frutos da ordem natural da equação dedicação, talento e sorte. Por isso, ao saírem das universidades superlotam os cursos de especialização à procura da profissionalização que, definitivamente, não é a vocação da academia.
A fórmula mais eficiente de profissionalização é a combinação harmoniosa entre a escola e o mercado. Isso não acontece com a propaganda brasileira, onde, há muito, não ocorrem experiências diferentes e relevantes que envolvam esses dois atores. A exceção é a Nova Batata, agência temporária, formada por estudantes, sob inspiração da NovaSB, que atendeu clientes localizados no Largo da Batata em Pinheiros, São Paulo.
Nessa iniciativa de extrema competência e sem as tradicionais afetações, ficaram maculadas as idéias da democracia dos medíocres e da ditadura dos resultados. Essa é a verdadeira fórmula do sucesso.