Stop and go     

18 de julho de 2011

3 Comentários

“O prazer é único, não se repete.
A alegria repete-se sempre. Basta lembrar.”
(Rubem Alves)

Eu morava em uma casa que tinha uma ampla área envidraçada na sala de estar. Não havia momento mais agradável na semana do que os sábados pela manhã, fosse verão ou inverno, quando o sol invadia o ambiente trazendo luz e calor.

Em uma das empresas nas quais militei, uma daquelas onde se dedica grande parte da vida, vicissitudes levaram ao encerramento das atividades depois de quase uma década de trabalho.

Após dez anos de relacionamento, entre os altos e baixos que permeiam a união de um casal, meu casamento sucumbiu.

Eu não desejava ficar distante daquela casa. Mas tive que desocupá-la. Eu não me imaginava “apagando a luz” daquela empresa. Mas tive que fazê-lo. Eu não apreciava a ideia da separação. Mas os sentimentos mudaram.

Cultivamos um hábito pernicioso, ainda que inconscientemente. Costumamos nos apegar a objetos, pessoas e eventos. E, ao agirmos assim, supervalorizamos estes aspectos. Damos a eles uma dimensão irreal, passando a viver em função – e por causa deles. Isso nos anuvia a mente, bloqueia-nos a criatividade, ceifa-nos a flexibilidade. Perdemos a capacidade de nos adaptar, de mudar e de crescer. E, nesta toada, morremos lentamente…

A palavra é: desprendimento. Uma habilidade ímpar de racionalmente avaliar a relevância de coisas, pessoas e situações, ponderando objetivamente sobre seus prós e contras, renunciando se recomendável for. Não se trata de uma mera desistência, fruto da ausência de persistência. Trata-se de encerrar um ciclo, muito prazeroso outrora, mas que agora é apenas fonte de ressentimentos e inquietudes. E abrir a porta para permitir ao futuro entrar.

Shakespeare dizia que guardar ressentimento de alguém é o mesmo que tomar veneno esperando que o outro morra. Por falta de humildade ou por inflexibilidade, muitas vezes julgamos mal as pessoas e avaliamos inadequadamente uma situação. Criamos nossas próprias soluções e a elas ficamos presos, como se fossem unas e imutáveis, instransponíveis para sugestões e aprimoramentos propostos por outrem.

Aprendi que as pessoas, em regra, não estão contra mim, mas a favor delas. E na defesa de seus próprios interesses acabam por agir inadvertidamente, ferindo e magoando com a aspereza da palavra ou com a dureza das atitudes. E aprendi que também sou assim, porque sou para as outras pessoas o que as outras pessoas são para mim.

Há rotinas de trabalho que necessitam ser substituídas ou abandonadas. Há produtos dentro do mix das companhias que precisam ser retirados de linha. Há empresas que devem ser fechadas. Há relacionamentos que clamam serem desfeitos.

Quando você se mantém preparado para as mudanças que certamente ocorrerão em sua vida, o desprendimento torna-se fácil e até agradável. Na vida profissional, você pode fazê-lo buscando constante atualização técnica e cultural, participando de cursos, palestras, seminários e encontros diversos, cultivando o hábito da leitura, monitorando o mercado de trabalho, mostrando-se aberto a novos aprendizados, conhecendo outras realidades, outras empresas de outros segmentos, outras pessoas de fora de seu círculo de relacionamentos convencional.

Erros e fracassos são recorrentes. Persistir no erro não é exemplo de perseverança, mas de sua face nefasta representada pela teimosia. Tempo desperdiçado, recursos malbaratados, talentos vilipendiados. Há pessoas que colocam seu futuro e sua vida nas mãos de outra pessoa ou de uma organização, transferindo-lhes uma responsabilidade que é absolutamente unipessoal. Há tanto por se viver…

Em outras casas morei, com áreas mais ou menos envidraçadas, mas com o sol igualmente iluminando e aquecendo minhas manhãs de sábado.

Em outras empresas atuei, nas quais pude imprimir minha marca, colocando minha experiência a serviço, fosse para estimulá-las a continuar sua caminhada, fosse para sugerir-lhes findar o percurso.

Outros amores experimentei, dotados de um prazer único em suas peculiaridades, cultivados sem prazo de validade, fonte eterna de alegria através do exercício da lembrança.

A vida pessoal e corporativa muitas vezes sugere parar, recuar ou interromper. Não pela estática, mas pela dinâmica de seguir adiante.

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3 Comentários

  1. Fantastico! Tudo haver ….boa matéria!

    Comentário by bethbloes — 18 de julho de 2011 @ 21:33

  2. Excelente!!! Artigo Objetivo Profundo com Expertise Parabensssssssss!!!!!!

    Comentário by luis pereira — 19 de julho de 2011 @ 11:29

  3. Beth, não se escreve "Tudo haver" e sim "Tudo a ver"…

    Comentário by Veronika Vajda — 24 de julho de 2011 @ 8:14

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Biografia

Tom Coelho, com formação em Publicidade pela ESPM e Economia pela USP, tem especialização em Marketing pela Madia Marketing School e em Qualidade de Vida no Trabalho pela USP. É mestre em Gestão Integrada em Saúde do Trabalho e Meio Ambiente pelo Senac. Foi executivo de empresas dos setores de transporte de cargas e exportação de café entre 1989 e 1993 e empresário no setor metalúrgico e de construção civil por onze anos. Ex-secretário geral do IQB (Instituto da Qualidade do Brinquedo), órgão vinculado ao INMETRO, foi o artífice da elaboração da NBR-14350/99, norma brasileira de segurança para brinquedos de playground. Também foi diretor eleito do Simb (Sindicato das Indústrias de Brinquedos do Estado de São Paulo), vinculado à Abrinq (Associação Brasileira dos Fabricantes de Brinquedos) no período compreendido entre 1998 e 2004 e vice-presidente de negócios da AAPSA (Associação Paulista de Gestores de Pessoas) entre 2007 e 2009. Atualmente é professor em cursos de pós-graduação, conferencista e escritor com artigos publicados regularmente por mais de 700 veículos da mídia impressa e digital, inclusive na Argentina, Bolívia, Uruguai, Chile, Venezuela, Colômbia, Panamá, México, Estados Unidos, Cabo Verde, Portugal, Espanha, Inglaterra e Japão. É autor do livro “Sete Vidas – Lições para construir seu equilíbrio pessoal e profissional”, publicado em 2008 pela editora Saraiva, e coautor dos livros “Roda Mundo, Roda-Gigante”, antologia internacional publicada em 2004, 2005 e 2006, e “Gigantes das Vendas”, obra reunindo os 50 maiores nomes do Brasil sobre o tema, publicado em 2006. Ministra palestras com temas que transitam de qualidade de vida e segurança no trabalho, passando por marketing e empreendedorismo, até responsabilidade social e educação. Foi avaliado como o 2º melhor palestrante entre os 56 conferencistas presentes no Congresso Brasileiro de Treinamento e Desenvolvimento. Acumula, ainda, os cargos de diretor da Lyrix Desenvolvimento Humano, diretor estadual do NJE (Núcleo de Jovens Empreendedores), vinculado ao Ciesp (Centro das Indústrias do Estado de São Paulo) e fundador-conselheiro da ONG Projeto Viva. Contatos através do e-mail tomcoelho@tomcoelho.com.br. Visite www.tomcoelho.com.br e www.setevidas.com.br.