A USP não pode ser gratuita     

20 de maio de 2011

1 Comentários

“O importante da educação não é o conhecimento dos fatos, mas dos valores.” (Dean William Inge)

O assassinato de um estudante nas dependências da Universidade de São Paulo, além de causar comoção e preocupação, deve também resgatar um debate há muito negligenciado: as universidades públicas não podem continuar integralmente gratuitas.

USP, Unesp e Unicamp conquistaram em 1989 a chamada autonomia financeira recebendo repasses do Governo da ordem de 9,57% da receita líquida do ICMS. Portanto, é dinheiro público, de um Estado formado por mais de 41 milhões de habitantes (Censo 2010), para beneficiar cerca de 210 mil pessoas, entre estudantes, funcionários e docentes.

Diante desta informação, toda discussão acerca da abertura dos portões da USP ao público em geral e sobre a participação da polícia militar em rondas ostensivas é improcedente. A população tem direito de acesso a um espaço comum. A polícia deve prover segurança à Cidade Universitária como deve fazê-lo em qualquer outra localidade.

Os defensores da universidade pública integralmente gratuita alegam, com razão, que a educação é um direito do cidadão e um dever do Estado. Argumentam também que muitos ingressantes cursaram o ensino médio em escolas privadas com a finalidade de, melhor preparados, obterem sucesso no concurso vestibular. Ouvi estas e outras teses em minha passagem pela USP, nos anos 1990, arduamente defendidas pelos pseudoesquerdistas do Diretório Central de Estudantes (DCE) e de diversos Centros Acadêmicos.

O fato é que muitos estudantes lutam, sim, para ingressar em uma destas universidades não apenas por sua qualidade de ensino e reputação, mas também porque não poderiam pagar pelos estudos. Refiro-me a alunos que usam transporte público, frequentam assiduamente as bibliotecas para fugir da aquisição de livros, dividem espaço em repúblicas ou conjuntos habitacionais com vários outros colegas ao longo de quatro ou cinco anos.

Contudo, há um número expressivo de estudantes oriundos das classes A e B, com renda familiar mais do que suficiente para custear seus estudos e que se locomovem em veículos próprios, desfilam roupas de grife e lotam os bares nos arredores da faculdade sem preocupação com o valor da conta.

Tomemos como exemplo os estacionamentos em todas as faculdades da USP. São mal iluminados, sem monitoramento eletrônico e vigilância policial. Diante disso, cabe ao poder público investir em postes de iluminação, câmeras e policiamento, ou cabe aos proprietários de veículos se cotizarem para suprir estas necessidades? Por que aqueles que pagam despreocupadamente R$ 20,00 ou mais para estacionar seus veículos com um manobrista julgam absurdo pagar uma mensalidade para guardarem seus carros com segurança?

O fim da gratuidade não significa necessariamente a cobrança de mensalidades. Este expediente pode ser aplicado a alguns alunos, mas o fato é que todos, indistintamente, deveriam legar à sociedade parte do que dela receberam. Por que os estudantes de Direito do Largo São Francisco não advogam para a população carente? Por que os engenheiros da Poli não realizam ações de urbanização de favelas? Por que os profissionais da área de saúde não reforçam o atendimento nos postos de saúde e prontos-socorros?

É uma questão de vontade política, consciência moral e valores virtuosos. Os trabalhos de conclusão de curso, estágios e que tais deveriam ser cumpridos em atendimento à comunidade. Os graduados deveriam destinar um dia por mês ao longo de um ano, no mínimo, para trabalho assistencial. Mas é mais fácil fechar os olhos para a favela São Remo, proibir o acesso de “pessoas diferenciadas” no campus ou até mesmo erguer muros e instalar cancelas, praticando o segregacionismo.

Basta de hipocrisia!

* Tom Coelho é educador, conferencista e escritor com artigos publicados em 15 países. É autor de “Sete Vidas – Lições para construir seu equilíbrio pessoal e profissional”, pela Editora Saraiva, e coautor de outros quatro livros. Contatos através do e-mail tomcoelho@tomcoelho.com.br. Visite: www.tomcoelho.com.br e www.setevidas.com.br.

  • Share/Bookmark

This website uses IntenseDebate comments, but they are not currently loaded because either your browser doesn't support JavaScript, or they didn't load fast enough.

1 Comentário

  1. E quem nao tem condições so pode esta ali,por que quem as tem pagou impostos altissimos, a vida inteira para bancar a educação dos que entraram na universidade publica. Ter dinheiro é crime? Nao posso ter meu filho estudando na USP por que pago mais de 120 mil por ano em impostos? Tenho eu que continuar bancando quem nao paga impostos? Nao posso ter nenhum retorno do Estado que eu sustento a duras penas? Seu texto é mais de esquerda do que o da turminha do diretorio, só que no seu caso envolve o pagamento de mensalidade.

    Comentário by Ricardo — 26 de maio de 2011 @ 7:59

Deixe um comentário

Nome (obrigatório)
Email (não será publicado) (obrigatório)
Site
Comentário:

Biografia

Tom Coelho, com formação em Publicidade pela ESPM e Economia pela USP, tem especialização em Marketing pela Madia Marketing School e em Qualidade de Vida no Trabalho pela USP. É mestre em Gestão Integrada em Saúde do Trabalho e Meio Ambiente pelo Senac. Foi executivo de empresas dos setores de transporte de cargas e exportação de café entre 1989 e 1993 e empresário no setor metalúrgico e de construção civil por onze anos. Ex-secretário geral do IQB (Instituto da Qualidade do Brinquedo), órgão vinculado ao INMETRO, foi o artífice da elaboração da NBR-14350/99, norma brasileira de segurança para brinquedos de playground. Também foi diretor eleito do Simb (Sindicato das Indústrias de Brinquedos do Estado de São Paulo), vinculado à Abrinq (Associação Brasileira dos Fabricantes de Brinquedos) no período compreendido entre 1998 e 2004 e vice-presidente de negócios da AAPSA (Associação Paulista de Gestores de Pessoas) entre 2007 e 2009. Atualmente é professor em cursos de pós-graduação, conferencista e escritor com artigos publicados regularmente por mais de 700 veículos da mídia impressa e digital, inclusive na Argentina, Bolívia, Uruguai, Chile, Venezuela, Colômbia, Panamá, México, Estados Unidos, Cabo Verde, Portugal, Espanha, Inglaterra e Japão. É autor do livro “Sete Vidas – Lições para construir seu equilíbrio pessoal e profissional”, publicado em 2008 pela editora Saraiva, e coautor dos livros “Roda Mundo, Roda-Gigante”, antologia internacional publicada em 2004, 2005 e 2006, e “Gigantes das Vendas”, obra reunindo os 50 maiores nomes do Brasil sobre o tema, publicado em 2006. Ministra palestras com temas que transitam de qualidade de vida e segurança no trabalho, passando por marketing e empreendedorismo, até responsabilidade social e educação. Foi avaliado como o 2º melhor palestrante entre os 56 conferencistas presentes no Congresso Brasileiro de Treinamento e Desenvolvimento. Acumula, ainda, os cargos de diretor da Lyrix Desenvolvimento Humano, diretor estadual do NJE (Núcleo de Jovens Empreendedores), vinculado ao Ciesp (Centro das Indústrias do Estado de São Paulo) e fundador-conselheiro da ONG Projeto Viva. Contatos através do e-mail tomcoelho@tomcoelho.com.br. Visite www.tomcoelho.com.br e www.setevidas.com.br.