Celia Belem – Arquitetura do Conhecimento
Colaboração: Laís Chiavone
Emprestei parte do título do artigo “Mulheres de Verdade”, do Madia porque nas últimas semanas tenho sido assediada por várias matérias, menções e até trabalhos que mostram mulheres sob um novo ângulo, culminando com o artigo do mencionado no Portal Inteligemcia. Acho que todos se cansaram da velha ode às mulheres multifacetadas que são ótimas e brilhantes em tudo o que fazem seja na vida pessoal, emocional e profissional. Como o tema vem me procurando insistentemente, resolvi abordá-lo porque, como diria Jung, é mais do que coincidência, é sincronicidade.
Em estudos recentes conduzidos pela minha empresa entramos em contato com inúmeras mulheres de Norte a Sul do Brasil, tratando de seus papéis, considerados os mais conservadores, como o de dona de casa e de mãe, mesmo quando falávamos com mulheres que trabalhavam fora, até porque nas classes menos privilegiadas não há empregada doméstica, e na ausência de uma mãe ou sogra para ajudar, é a mulher a responsável por todas as atividades do lar.
Considerei que seria o caso de falar sobre a vida das mulheres de classe C sob outra ótica, já que elas pertencem a uma classe que vem sendo cantada em prosa e verso, especialmente, sobre sua capacidade e importância no consumo.
Por isso gostaria de aproximar a lente e falar destas mulheres, de como elas buscam seus objetivos e não de sua capacidade de consumo. É muito interessante vê-las como indivíduos em todas as suas dimensões, até porque seus valores e atitudes determinam o que compram e consomem.
Foi possível observar que uma grande parte da população feminina agregou às suas tarefas diárias o trabalho fora de casa (56% das mulheres paulistanas – SEADE), sem se desobrigar das atividades domésticas dada a impossibilidade da ajuda de uma empregada, completamente fora do seu orçamento doméstico. Por outro lado, o fato de ter seu próprio dinheiro garante, de fato, o consumo de vários produtos que, caso dependesse apenas do salário do marido, não seriam consumidos, menos pela sua capacidade de compra e mais por seus critérios e necessidades. Apenas como exemplo: embora contribuam com o orçamento familiar, elas podem comprar alimentos que facilitam o trabalho de cozinhar, como os prontos ou semiprontos, produtos de limpeza, guloseimas para seus filhos, assim como brinquedos e roupas, embora sempre estejam atentas ao preço e às melhores ofertas realizando um verdadeiro malabarismo financeiro. Este é o resultado positivo do trabalho fora de casa. Mas, quanto pagam para ter esta independência financeira?
Elas pagam muito, um valor astronômico, debitado de sua força física e emocional porque, somadas às necessidades da família, colocam-se suas expectativas e sonhos pessoais e do que projetam para seus filhos, resultando em uma realidade acachapante e exaustiva, quando vista (sem o s) de perto.
Só para se ter uma idéia, a seguir um arrolamento de suas principais tarefas diárias, uma média do que ouvimos de um enorme contingente feminino, distribuído por várias Praças de Norte a Sul do Brasil, incluindo a cidade de São Paulo:
Tudo isto explica o cansaço, mas não há reclamação da sorte, nunca há atribuição de algum problema (sem o s) a outros e sempre orgulhosas de suas conquistas e da relação afetiva com sua família, incluindo mãe, pai e irmãos.
O marido, seja o primeiro ou o segundo, raramente contribui em alguma das tarefas, conservadoramente restritas à mulher. Não se discute. O marido (sem o s), na maior parte das vezes, tem o direito de descansar depois do trabalho, ver o noticiário na TV e o jogo de futebol, ir dormir, porque afinal eles acordam cedo para trabalhar, e conferir se a roupa que vão usar no dia seguinte está limpa e passada…
Elas nada esperam deles, fazem apenas comentários engraçados sobre a incapacidade masculina de ajudar em tarefas nas quais aparentemente poderiam contribuir como, por exemplo, ajudar ou supervisionar as tarefas da escola das crianças.
Parece que o mundo não deve nada para elas. Elas são donas do seu destino. Apanhadas no furacão da revolução feminina que as impulsiona para fora de casa, prometendo independência financeira, elas vão em frente. Estas batalhadoras se sentem gratificadas por terem um emprego, às vezes dois, em nome de construir uma vida mais estruturada, sonhando em voltar a estudar e permitir que seus filhos tenham um futuro melhor que o (sem o s) delas.
Elas não reclamam, resolvem.
Elas não se separam, garantem um pai para seus filhos.
Elas não gastam, investem.
Elas são tratores, leoas, vestidas com coletes à prova de bala, (sem o s) dormem com um olho aberto e outro fechado.
E, se por um lado podemos pensar que elas não têm cultura e conhecimento formais, para compensar têm uma disposição e coragem que não se pode pagar com cartão de crédito: é instintivo, quase animal, atributos que as “altamente educadas e privilegiadas” lutam dia após dia para não precisar usar.
Esta forma de viver é tocante e emocionante porque quando falamos com mulheres de classes mais altas que trabalham e mais conscientes de seus direitos e dos novos valores e demandas, o discurso é pontuado por reclamações e críticas ferozes (acho que este adjetivo está sobrando). Neste caso, parece que o mundo, o marido, (sem o s) as empresas e os empregadores são eternos devedores e não reconhecem o seu valor. Suas questões mais importantes referem-se ao seu mundo interno, à falta de tempo para si mesma, incluídos os cuidados pessoais e o lazer.
Não é que as mulheres de classe C desconsiderem o cuidado pessoal ou as atividades relaxantes, mas o seu olhar está voltado mais para o futuro do que para o presente. Lá adiante, acreditam, vão poder relaxar e viver melhor, quando tudo o que planejarem virar realidade.
Só para terminar, quais as marcas que estão se colocando ao lado destas mulheres de verdade? Quais estão preocupadas com seus problemas e necessidades? Quais estão tendo a sensibilidade de atendê-las oferecendo qualidade e preço? Posso estar enganada, mas pelo que vi nas suas casas, parece que as marcas genéricas e aquelas mais acessíveis estão mais próximas, embora elas ainda continuem desejando comprar as grandes marcas. A pergunta inevitável é a seguinte: e se o futuro planejado por elas acontecer? Será que elas voltam para as grandes marcas ou ficam com as outras que vêm melhorando, cada vez mais, sua qualidade?
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