Do Cruzeiro à Vila Cruzeiro     

22 de dezembro de 2010

2 Comentários

Passei minha adolescência e começo da vida adulta na década de 80. Lá, e até os primeiros anos da década de 90, tínhamos a nítida impressão de que o Brasil era um país condenado a ter inflação pra sempre.

Este era um destino imutável de nosso país, o convívio com a maior inflação do mundo. Esta era uma “verdade” brasileira vendida para a gente todos os dias durante anos. E a gente ia administrando o dia-a-dia com overnight, conta remunerada, etc e tal.

Aí vieram alguns planos mirabolantes, como o Cruzado, o Verão, o Bresser. Falava-se em tiro na testa da inflação, em bala de prata para matar o monstro, muito teatro e pouca competência. No fim, todos esses planos, ao fazer água e naufragar, reforçavam a ideia de que não tinha jeito, o Brasil não ia se livrar nunca da inflação e de suas consequentes mazelas. Estava escrito: nosso destino era ser um país de segunda categoria.

Pois bem, a minha filha mais velha, que fez 16 esse ano, nem sabe do que estou falando. Ela nasceu praticamente junto com o Plano Real,  e cresceu em um país com inflação modesta, um país em que os banqueiros continuam ganhando dinheiro – nada contra – mas em que todos tem a oportunidade de ganhar e de guardar algum preservando seu valor.

Do mesmo jeito, nos últimos 30 anos, vem sendo repetido aos cariocas que a violência e o domínio territorial armado do tráfico nas comunidades estão na alma do Rio, faz parte da cidade, de sua cultura, de seu jeitão. Segundo esta crença que nos vem sendo vendida por governos incompetentes e campanhas políticas maquiavélicas, o convívio das pessoas de bem com esta realidade muito próxima é, apesar de monstruosa, o que poderíamos esperar de melhor. “Cuidado para não provocar, não subir o morro, se não eles descem e aí é que fica ruim de verdade”. Essa é uma das “verdades” cariocas repetidas há anos nas ruas e casas da cidade.

É como se o Rio tivesse uma maldição. E a gente foi acreditando, convivendo, ficando com medo, e mais medo, e pavor, mas sempre acreditando que “poderia ser pior”. E assim nosso dia-a-dia foi sendo vivido, com carros blindados, técnicas de andar na rua e rezas para que nada de pior ocorresse.

Pois pela primeira vez acredito que meus dois filhos mais novos não saberão o que era isso, terão que recorrer ao youtube par ver a imagem daqueles 200 fugitivos pela mata da Vila Cruzeiro para acreditar que um dia o Rio foi tão violento.

Para isso acontecer, o que vimos nestes dias é só o começo. Assim como na economia, é uma mudança de postura e de cultura pela qual temos que passar nos próximos anos. Enquanto a polícia, a secretaria de segurança e até as forças armadas fazem o seu trabalho, com a ajuda da população, temos que pensar na reestruturação dessas polícias, pensar bem em quem votar nas próximas eleições, pensar que podemos sim ter um Rio de Janeiro – e um país – sem o domínio do medo. Porque a nova verdade é que o domínio armado e o poder de facções podem ser vencidos e estão começando a ser. Alemão e Cruzeiro é um começo. A ocupação positiva, com saúde, educação e cultura vem depois. Os investimentos nestas comunidades, a chegada de serviços e de empresas, o crescimento econômico do país que já levou milhões à classe C e vai levar mais gente, vai ajudar. Mas tudo começou com uma vontade política, realizada com muito planejamento e competência.

Tudo parece conspirar agora a favor do Rio neste momento. As olimpíadas e a Copa do Mundo foram o gatilho que despertou a vontade política e trouxe as verbas. Do fim do Cruzeiro como moeda ao recomeço da Vila Cruzeiro como comunidade, é uma beleza ser testemunha da história sendo feita.

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2 Comentários

  1. [...] This post was mentioned on Twitter by Gustavo Bastos. Gustavo Bastos said: Lê lá que vale. Rt @ inteligemcia Novo artigo #inteligemcia por @GustavoBastos : "Do Cruzeiro à Vila Cruzeiro" http://bit.ly/fCbbws [...]

    Pingback by Tweets that mention Do Cruzeiro à Vila Cruzeiro « Portal Inteligemcia – Hoje, a praça do marketing no Brasil; amanhã, no mundo. -- Topsy.com — 23 de dezembro de 2010 @ 11:11

  2. Prezado Gustavo, muito bem colocada a sua observação. Eu gostaria de acrescentar que o que faz falta ao carioca é atitude. Atitude de cidadão como vi na primeira vez que fui estudar nos EUA em 1968. De lá pra cá, nunca mais me adaptei aqui. Não consigo entender um povo que vota – e paga muito bem – em políticos que só se preocupam com o próprio bolso. Que gasta milhares de reais para limpar as ruas e desentupir as galerias do lixo que ele mesmo joga na rua. E por aí vai… posso te dar zilhões de exemplos da falta de educação. Mas no nosso caso, poderiamos ser mais específicos com relação a atitude. A prefeitura vive dizendo que não dispõe de fiscais suficientes mas eu tenho uma solução banal. Vc viu o retorno no disque-denúncia? Bastaria colocar placas nas ruas com o número de um telefone com chamada gratuita para uma Central de Denúncias/Reclamações para que façamos o nosso papel. Todo mundo tem celular com maquina fotografica. Bastaria mandar a foto para um site ou twitter. À Prefeitura caberia apenas rebocar, multar e faturar muito!!

    Comentário by Ricardo Martins — 23 de dezembro de 2010 @ 15:43

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Biografia

Gustavo Bastos Sócio e Diretor de Criação da 11|21 gustavobastos@onzevinteum.com.br Twitter: @GustavoBastos Gustavo Bastos é carioca, pai da Clara, do João e da Júlia, marido da Alessandra, foi redator na Salles, MPM, Artplan e VS, diretor de Criação na DPZ, JWThompson, GR3 e 100%Propaganda, foi roterista e consultor de criação da Rede Globo, foi Publicitário do Ano duas vezes, finalista do Caboré uma vez, Presidente do CCRJ e é premiado nos principais festivais do Brasil e do mundo.