Passadas algumas gerações, nos acostumamos a pensar no jovem como um transgressor, um inventor de modas, um transformador do mundo e da forma como todo mundo pensa. O jovem, principalmente dos 18 aos 25 anos, influencia os mais velhos e os mais novos.
Os velhos querem ser jovens e as crianças, um pouco mais velhos.
Ser jovem é ser independente, dono do seu nariz – ou pelo menos do seu quarto – ter a chave de casa e até do carro pela primeira vez. Ser jovem é tomar decisões que impactam o resto da vida, como escolher a profissão, por exemplo, e os amigos.
Pois aí é que a coisa vem mudando ultimamamente. Além dos amigos – da vizinhança, da escola e da faculdade – aqueles que nos acompanham pela vida afora, a geração jovem de hoje faz amizades rápidas e fugazes, assim como os namoros, que podem ser deletadas, apagadas do facebook ou do Twitter com um simples unfollow. Há muito tempo que os jovens “ficam”, mas com as redes sociais a coisa se institucionalizou.
A profissão também cada dia é várias, e não uma só. O cara é designer publicitário DJ artista plástico e tem uma grife dentro de um coletivo. Não um ônibus, mas um coletivo de profissionais que se juntam numa espécie de comunidade profissional com alguns elos como moda, design e propaganda.
O outro é advogado surfista ator produtor de cinema e professor em uma ONG em uma comunidade carente. Esta é outra característica deste jovem de hoje: ao mesmo tempo que temos pessoas, graças a Deus, muito mais pragmáticas e menos utópicas – nada conta as utopias, mas elas saíram do radar – elas ajudam muito mais. Na prática. É isso: uma juventude pragmática não espera alcançar a utopia do socialismo para ajudar os outros e sim acorda de manhã e ajuda, simplesmente ajuda, realisticamente, rapidamente e com um sorriso na boca. É graças a este pensamento e a estas atitudes, por exemplo, que as empresas estão perseguindo a sustentabilidade.
Um mundo mais politicamente correto pode ser um efeito colateral indesejado, sim, e a ansiedade também. Ser multitarefa, multiprofissional, ajudar, ter amigos rápidos e namoros idem e, ao mesmo tempo, manter padrões de comportamento como preocupaçnao com o futuro profissional e querer casa, isso dá muita ansiedade.
Vinha pensando sobre isso desde a semana passada, quando minha filha mais velha fez 16 anos. Ela mantém aquele frescor da criança que, ao ser perguntada sobre o que quer ser quando crescer, responde um monte de coisas. É como se todo mundo hoje pudesse pensar em ser, digamos, o Nelson Motta. Jornalista, comentarista de música, sabe tudo, entrou para a história como compositor, comentarista do Manhattan connection – para os mais novos – criador do Dancin’ Days, do Morro da Urca e da biografia do Tim Maia.
Só que agora a coisa está institucionalizada. Isto é ótimo, mas traz ansiedade. Esta é uma geração em geral ansiosa, com garotas e rapazes novinhos cheios de gastrite e úlcera.
Houve um tempo, antes da segunda Guerra mundial, que a juventude não era rebelde, não era fonte de mudanças nem influenciava ninguém. A juventude, aliás, nem existia,.
A juventude na forma como a gente vê hoje, surgiu na segunda metade da década de 40, se fortaleceu na década de 50 e tem como símbolos até hoje Elvis e James Dean.
Imagine você que, antes disso, os ídolos da juventude eram cantores como Bing Crosby, Frank Sinatra e atores como James Cagney. Adoro Bing, Frank e cia. mas eles não são exatamente artistas inconformados inspiradores de mudanças como um Kurt Cobain.
Tudo bem que tinha o Humpfrey Bogart, mas era só. Elvis apareceu durante a Guerra, antes dos EUA entrarem nela, mas já no clima de mundo em transformação. E veio daí.
Se andarmos ainda mais para tráz na história, bem lá para outros séculos, vamos entender que não havia juventude. E por um motivo muito simples: as pessoas morriam muito jovens, não existia nem a penicilina, então era infância, juventude e pronto, acabou. Juventude era a vida em si. Guerreiros comandavam exércitos muito jovens. Reis eram garotos sapecas costruidores de pirâmides e rainhas eram meninas. Séculos e mais séculos depois, a penicilina e as incertezas sobre o futuro inventaram a juventude e logo depois a juventude rebelde.
Do século 20 pra cá, a juventude passou a ocupar mais e mais espaço não só por sua importância, mas por sua longevidade. Hoje, qualquer pessoa – inclusive eu – com 45 anos, é jovem. Há 30 anos, com 50 a gente era velho e aos 60, pronto para seguir para o cemitério dos elefantes. Se os jovens da França estão protestando contra dois anos mais de trabalho antes da aposentadoria, pode ser que seja justo, mas aposto que nenhum deles acha que uma pesoa com 60 anos está cansada ou incapacitada, pela idade, de trabalhar.
É só uma questão de protestar contra mudanças que não interessam aos jovens. Porque todo jovem quer, naturalmente, mudar o mundo. Mas nenhuma pessoa, de nenhuma idade, quer que o mundo mude contra ela, só a seu favor.
E o jovem de hoje, em seu pragmatismo incrível, já pensa na sua velhice. Antigamente o jovem pensava que nunca se tornaria um velho. Hoje o jovem sabe que vai chegar lá. Então, o negócio é ficar jovem pelo maior tempo possível e já construir desde já uma velhice saudável e rica. Vamos ao geriatra com 30 anos e poupamos desde ou 16.
Os ídolos de hoje muitas vezes não são mais o Cobain, mas um jovem bilionário como ofundador do Facebook ou como os fundadores do Google. Não querem mais ser um rockeiro sem lenço e sem documento, cercado de roadies, drogas & rock n’ roll, mas ser um ídolo dos negócios, do futuro, mudar o mundo e ficar bilionário.
E é a favor dos jovens que o mundo vem mudando ultimamente. A internet, o videogame, o celular e todas as suas aplicações – e aplicativos – foram criados para os mais jovens e usadas por pessoas mais velhas – como eu – que se adaptam e se divertem com isso.
Nem sempre foi assim, muito pelo contrario. Nem a moda mirava os jovens antes de 50. Veja um filme num canal de películas em preto e branco e veja como os atores tem pinta de velhos, se vestem como velhos, penteiam os cabelos como velhos. Depois faça as contas e veja como na verdade eram jovens. Eles imitavam os mais velhos. Todo mundo queria ser velho. Hoje não, todo mundo quer ser jovem.
O video “we all want to be young” (veja no youtube), feito por uma empresa de pesquisa de comportamento e tendência explica a diferença do que eu chamo de várias juventudes, da segunda guerra pra cá, e fala bastante sobre a turma de hoje, multicultural, multitarefa e ansiosa. Esta ansiedade, assim como o politicamtne correto, talvez seja o mais grave efeito collateral de ser jovem hoje. Isto sem falar no efeito nocivo das drogas sintéticas, do crack, e de qualquer outra droga.
Primeiro, a humanidade criou a juventude. Depois, criou a adolescência. Agora, está inventando a juventude revisada e ampliada. Seremos jovens para sempre, aí talvez a gente invente uma coisa nova. Não sei qual será, mas será inventada por um jovem.
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Gustavo te cumprimento pela qualidade de seu texto. Positivo e inteligente, poderá ser lido e apreciado do início ao final.
Parabens.
Monica Höera
Comentário by monica hoera — 7 de dezembro de 2010 @ 16:59