Sobre a vida e suas fases     

30 de agosto de 2010

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Por Carla Mello*

Há tempos falamos das diferentes gerações: baby boomers, X, Y, Z, entre outras novas denominações que surgem a cada dia. A verdade, porém, é uma só – embora tenhamos idades ou pertençamos a gerações diferentes, “o sistema vital interior tem seu próprio relógio, é obstinado e cheio de idiossincrasias, e é provável que em algum momento da vida todos nós nos sintamos como o homem que geme, sem que ninguém nos escute”. A frase – do livro Crises previsíveis da vida adulta, de Gail Sheehy.- serve para lembrarmos que cada estágio da vida nos leva a um fim e um reinício.

Aos vinte anos, denominada de fase de arrancar as raízes, temos a necessidade de sermos aceitos pelos grupos e pares e um sentimento de ambivalência forte quanto a deixar o ninho. Há também a convicção que as escolhas feitas são irrevogáveis. É como se estivéssemos cantarolando o tempo todo “should I stay or should I go…”. Fazemos e acreditamos no poder da vontade e tudo o que criamos nesta etapa é a mais pura manifestação da verdade e do único caminho existente.

Aos trinta, surgem alguns culpados: pai, mãe, marido, chefe, filhos, irmãos. Novas escolhas precisam ser feitas, opções devem ser revisadas; e comprometimentos, alterados ou aprofundados. Há vontade de expansão profissional, de vida social, de reconhecimento e de autoestima. A vida se torna menos provisória, pensamos ou revisamos nosso propósito e, muitas vezes, nos damos conta de nossa solidão.

Perto dos quarenta anos, apertamos o acelerador com mais força, como se fosse a última chance de chegar em primeiro lugar. Cansamos, paramos, repensamos. Será tudo isso a vida ou só isso? As prioridades começam a mudar e, então, vem a renovação ou a resignação. Não sabemos ainda bem certo. Se o equilíbrio for recuperado, avançamos; se insistirmos em bater o pé, nos resignamos e tudo pode ser visto como um abandono desolador, entediante. “O mundo caiu! Pouco me resta daqui para frente”.

Se o equilíbrio se instaurar, é possível ouvir algo como “não posso esperar que ninguém me compreenda perfeitamente, embora eu possa compreender perfeitamente os outros”. Sensacional não é mesmo? O lema deste estágio, já próximo dos cinqüenta anos, pode ser – “daqui pra frente nada de besteiras” e “daqui pra frente nada de esforços sem sentido”.

As questões ou tarefas que consideramos como essenciais nos períodos da vida na realidade nunca são plenamente completadas. Elas se esgotam em si mesmas – em cada estágio da vida – quando renunciamos às respectivas ilusões de cada fase. Não é somente uma questão de escolhas, é uma questão de sobrevivência e de evolução. Precisamos em cada etapa mudar de cadeira e trocar de chapéu. Por que? Porque cadeira nova é pouco confortável, chapéu velho é o melhor e, como lagostas, devemos construir nossa carapaça para que, com o passar do tempo, ela caia, nos deixe vulneráveis e desprotegidos por um tempo, até ser substituída por outra. A cada sentimento de desamparo, há uma evolução. A cada crise, segue-se uma transformação. Mudar de cadeira, de chapéu ou de casca é supremo. Se eu me atrasar no processo, arranquem a carapaça de mim!

*Carla Virmond Mello, Diretora da Acta Desenvolvimento e Educação e Especialista em Carreira da DBM Brasil em Curitiba.


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